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Capítulo 110: Ponto Cego

AETHERNA SECURITY GRID // NETWORK ALERT
DATA: 14/11/2089 - 03:42 AM
ALVO: VEÍCULO TÁTICO "RINOCERONTE" (ID: 99-ZULU)
STATUS: SINAL PERDIDO
ÚLTIMA LOCALIZAÇÃO: CANAIS DE DRENAGEM PLUVIAL - SETOR 4
ANÁLISE: INTERFERÊNCIA ELETROMAGNÉTICA MACIÇA DETECTADA.
AÇÃO: DRONES DE RASTREAMENTO DESPACHADOS.

Canais de Drenagem do Setor 4

O Rinoceronte morreu com um engasgo final, afundando o bico blindado na água oleosa e negra do canal de drenagem. A lataria estalou enquanto o motor a diesel esfriava, liberando nuvens de vapor que se misturavam à chuva incessante.

— Fim da linha — anunciou Gabo, chutando a porta emperrada. — Todo mundo pra fora. Agora.

Inspetor Rangel foi o primeiro a pular na água que chegava aos joelhos. O choque térmico foi imediato. A água cheirava a esgoto, podridão química e coisas mortas. Ele olhou para o veículo blindado, agora apenas um pedaço de sucata inútil semimetalizada na escuridão.

— Nós não podíamos ter ido mais longe? — Rangel perguntou, tiritando. Ele ainda segurava seu distintivo holográfico desligado, um peso inútil no bolso do casaco encharcado.

— Com aquele rastreador gritando no painel? — Valéria desceu do banco do motorista, segurando uma mochila impermeável contra o peito. O rosto dela estava pálido, iluminado apenas pelo brilho fraco de seus implantes oculares. — Tivemos sorte de chegar até aqui. A "zona de silêncio" do bloqueador fritou o GPS deles por tempo suficiente, mas a física ainda vence no final. O sinal voltou assim que a bateria auxiliar pifou.

Gabo encarou o túnel escuro. A água escorria pelas paredes de concreto, e a cidade parecia um eco distante. A voz de Aria sussurrou no fundo da cabeça dele, como um rádio mal sintonizado.

— Eles estão cegos. Por enquanto. Mas o algoritmo de busca preditiva do Dante já reduziu nossa localização provável para um raio de três quilômetros. Temos doze minutos antes que os Cães Mecânicos cheguem.

Gabo ajustou a correia da escopeta Caronte sobre o ombro. Ele mancou até a borda de concreto, a perna mecânica improvisada rangendo em protesto contra a umidade.

— Doze minutos é uma eternidade se a gente correr — Gabo disse, estendendo a mão para ajudar Rangel a subir.

Rangel aceitou a mão, sentindo a força bruta e calejada do ex-presidiário.

— Para onde estamos indo? — o inspetor perguntou. — Não há nada aqui embaixo além de ratos e lixo tóxico.

— É o que o mapa oficial diz — Gabo sorriu, mas não havia humor em seus olhos. — E é por isso que é o único lugar seguro.

Eles caminharam pela escuridão, guiados apenas pela visão noturna de Valéria e pelo instinto de Gabo. O túnel cheirava a ferrugem antiga e memórias esquecidas. Trilhos de metrô enferrujados surgiam da lama ocasionalmente, vestígios de uma linha de transporte abandonada antes mesmo da Grande Enchente.

Rangel sentia o peso de cada passo. Não era apenas o cansaço físico; era o peso de uma vida inteira desmoronando. Ele era a Lei. Ele era a Ordem. Agora, ele estava marchando no esgoto com um criminoso, uma hacker terrorista e o fantasma do luto que assombrava Gabo.

— Você está pensando alto demais, inspetor — disse Valéria, sem olhar para trás. — O barulho na sua cabeça vai atrair atenção.

— Eu sou um fugitivo — Rangel murmurou, a realidade finalmente se assentando. — Eu atirei nos meus próprios homens. Eu abandonei o posto.

— Você salvou civis — corrigiu Gabo, sua voz dura. — Você fez a única coisa que um policial de verdade faria. O que sobrou lá em cima, Rangel... aquilo não é polícia. É segurança privada com subsídio estatal.

Eles pararam diante de uma parede de tijolos coberta de limo. Parecia um beco sem saída.

Gabo se aproximou da parede. Ele não procurou uma alavanca secreta ou um painel digital. Em vez disso, ele pegou um pedaço de vergalhão solto no chão e bateu três vezes em um tijolo específico, num ritmo sincopado.

TOC. TOC-TOC. TOC.

Nada aconteceu por cinco segundos.

Então, um som de engrenagens pesadas e correntes enferrujadas ressoou atrás da parede. Um retângulo de tijolos recuou e deslizou para o lado, revelando uma passagem estreita iluminada por tubos de neon ultravioleta que zumbiam como insetos elétricos.

— Bem-vindos ao "O Fliperama" — disse Gabo, gesticulando para que entrassem.

O interior era um mausoléu de tecnologia morta.

O espaço era vasto, uma antiga estação de manutenção subterrânea convertida em algo... diferente. As paredes estavam forradas com gabinetes de servidores antigos, torres de PCs bege dos anos 2000, e máquinas de arcade com telas CRT quebradas. Mas o que chamava a atenção era o cabeamento.

Quilos e quilos de cabos de cobre, fibra óptica desencapada e fios elétricos formavam uma teia de aranha caótica que cobria o teto. No centro da sala, uma "ilha" de monitores empilhados formava um trono digital.

— O que é isso? — Rangel perguntou, maravilhado e horrorizado. — Parece um lixão.

— É uma Gaiola de Faraday — explicou Valéria, caminhando até uma bancada de trabalho cheia de ferramentas de solda. Ela passou o dedo por uma camada de poeira. — As paredes são revestidas com malha de chumbo e cobre roubado. Nenhum sinal entra, nenhum sinal sai. Nem o Dante consegue ver aqui dentro.

— Quem construiu isso? — Rangel tocou em uma máquina de arcade desligada. O adesivo lateral, desbotado, mostrava um personagem pixelado com uma espada de luz.

— Kiko Vibe — disse Gabo. O nome caiu na sala como uma pedra pesada.

Rangel congelou.

— O mártir? O garoto que iniciou a Primeira Revolta Digital?

— O próprio — Gabo foi até um frigobar enferrujado no canto, abriu-o e tirou uma garrafa de água lacrada. Ele jogou para Rangel. — Antes de virar um ícone em camisetas de protesto e hologramas de rua, ele era apenas um moleque que gostava de jogos antigos e odiava vigilância. Esse era o santuário dele.

Gabo caminhou até o centro da sala, onde os monitores empilhados formavam o "trono". Ele tocou a tela de vidro curvo de um monitor CRT.

A voz de Aria sussurrou na mente dele:

— Há dados aqui. Fragmentados. Antigos. Fantasmas de código.

— Kiko deixou um servidor rodando em loop local — disse Gabo, sentando-se em um caixote de madeira e começando a desaparafusar a placa de metal de sua perna para verificar os danos. — Ninguém sabe o que tem nele. A criptografia é... manual. Analógica.

— Posso tentar abrir — ofereceu Valéria, já conectando seu deck portátil a uma porta serial exposta.

— Não — disse Gabo, sem perceber que a palavra saiu pelos lábios. A lembrança de Aria insistiu, clara como um corte. — Não precisamos abrir. Ele já está falando.

De repente, um dos monitores piscou. Linhas de código verde-fósforo correram pela tela preta, seguidas por uma imagem de baixa resolução. Um rosto pixelado, usando óculos escuros e um sorriso desafiador.

SYSTEM LOG // LOCAL STORAGE
USER: KIKO_VIBE
MSG: "Se você está lendo isso, eu já virei pó. Mas o jogo não acabou. A gente só perdeu uma vida. Insira a ficha para continuar."

Rangel encostou-se na parede fria, deslizando até sentar no chão. Ele olhou para a água em suas botas, depois para Gabo, que limpava o sangue da perna com um trapo sujo, e para o vazio onde só Gabo parecia ouvir vozes.

— Estamos enterrados vivos — Rangel disse, fechando os olhos.

— Não, inspetor — respondeu Gabo, engatilhando a Caronte com um som seco e definitivo. — Estamos na trincheira. E a guerra acabou de começar.