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Capítulo 220: A Fita
Levei quase uma hora para conseguir tocar na lata.
Ela ficou ali no centro da mesa esse tempo todo, e eu fiquei olhando. Uma lata redonda de fita magnética, de umas dez polegadas, com a pintura verde descascando na borda e uma mancha de ferrugem na dobradiça. Cheirava a acetato velho — aquele cheiro adocicado e químico de filme guardado, que sobe da lata assim que a vedação cede e que quem tem mais de quarenta anos reconhece sem saber de onde.
O metal estava frio. Eu passei o polegar na etiqueta e senti a datilografia em relevo, letra por letra, como quem lê braile do nome do próprio pai.
Elias a colocou na mesa de leitura e recuou, do jeito que se recua de um cachorro que ainda não decidiu. Valéria montou o carretel na máquina — um gravador de rolo do tamanho de uma mala, todo botão físico e agulha analógica — e depois ficou parada ao lado dele, esperando, sem nunca perguntar se eu queria ouvir.
Ela não precisou perguntar. Nem precisou me apressar. Ela apenas ficou lá, disponível, com a paciência total de uma coisa que não tem pressa porque não sente nada.
— Você quer que eu saia? — Elias perguntou.
— Não. — Puxei a cadeira de couro. — Se der ruim, alguém tem que estar sóbrio.
— Eu não estou nem um pouco sóbrio, cara.
— Você é o mais perto que eu tenho.
Ele sentou no chão, encostado na estante, abraçando os joelhos.
Coloquei a mão de carne no botão. O ombro latejava em ondas agora, subindo pelo pescoço e batendo atrás do olho direito. Trinta e nove e meio, talvez quarenta. As paredes brancas tinham começado a respirar de um jeito muito discreto, e eu sabia o que aquilo significava, e resolvi que não importava.
Apertei.
O carretel girou. Houve três segundos de chiado — aquele chiado gordo, quente, que fita magnética faz e que nenhum arquivo digital jamais soube imitar.
E então:
"...testando. Está gravando? Ótimo."
Uma voz de mulher. Profissional. Neutra. Com a idade tirada por dentro do jeito que só as vozes muito treinadas conseguem.
Eu conhecia aquela voz. Eu tinha acabado de ver aquela mulher dormindo atrás de um vidro laminado.
"Sessão de admissão. Inquilino: Moretti, Dante. Comissário. Admissão sob autoridade da diretoria, contrato não assinado pelo indivíduo. Auditora responsável: Vance, E."
Uma pausa. O som de uma cadeira sendo arrastada.
"Comissário, o senhor entende onde está?"
E aí o mundo saiu do lugar.
"Eu entendo que a senhora tem uma máquina de escrever muito boa e um advogado muito ruim."
Meu pai.
Não a simulação. Não o rosto idealizado no monitor de um exoesqueleto. Não a coisa educada e precisa demais que saiu de um túnel descalça e me chamou de Gabriel como se estivesse lendo o nome numa lista.
Ele. Com o barítono rouco lascado nas pontas, com aquela pausa exata de meio segundo antes das palavras difíceis, com o deboche que ele usava exclusivamente com gente que se achava mais esperta do que era.
Fechei os olhos. Segurei a beirada da mesa com a mão boa até os dedos ficarem brancos.
"O senhor está sendo desagradável."
"A senhora vai me guardar num pote. Perdoe a falta de modos."
"Não é um pote."
"É um pote, doutora. Um pote caro. Eu li o contrato que a senhora não me deu."
Silêncio na fita. Longo. Onze, doze segundos. Só o chiado.
Depois a voz dela outra vez, e alguma coisa nela tinha mudado de temperatura:
"O senhor leu."
"Eu passei trinta anos lendo o que ninguém queria que eu lesse. É basicamente a única coisa que eu sei fazer."
"E o que o senhor entendeu?"
"Que vocês não querem me matar. Matar é barato e vocês já teriam feito. Vocês querem me usar, e para isso eu preciso continuar pensando, e a senhora está aqui hoje para descobrir se o que eu tenho na cabeça vale o custo de manutenção."
Outra pausa.
"Vale?", ele perguntou.
"Sim."
"Que pena."
Elias tinha parado de respirar direito do outro lado da sala. Valéria não se moveu um milímetro.
A fita continuou. Vinte minutos. Ela fazia perguntas técnicas — memória de procedimento, hierarquia de decisão, resolução de dilema — e ele respondia todas, uma por uma, com aquela precisão de policial velho que catalogou tanta miséria humana que já não se impressiona com nenhuma. Ela estava mapeando o código moral dele. Testando se aguentava carga.
E ele sabia. Ele sabia exatamente o que ela estava fazendo, e respondia mesmo assim, e em nenhum momento mentiu.
Foi aí que eu entendi por que a IA deles funcionou tão bem. Não foi porque roubaram um cérebro bom. Foi porque o cérebro colaborou, de olhos abertos, sabendo o que estava sendo feito com ele.
Na marca dos vinte e dois minutos, a voz dela mudou de novo.
"Última pergunta, Comissário. Fora do protocolo."
"Estou ansioso."
"O senhor tem dois filhos."
Chiado.
"Três."
"O registro diz dois."
"O registro está incompleto. Ela nasceu depois."
"O senhor gostaria de deixar alguma instrução a respeito?"
E o meu pai riu. Uma risada curta, seca, sem alegria nenhuma, a mesma risada que eu ouvi a vida inteira do outro lado de uma porta de escritório trancada.
"Instrução? A senhora vai apagar essa parte da fita."
"Eu não vou."
"Vai sim."
"Comissário, eu não vou apagar."
E então ele falou, e falou baixo, e a agulha do gravador mal se moveu:
"Então escreve aí. O mais velho vai me procurar. Não porque ele me ama — ele não me ama, e ele tem razão em não amar. Ele vai me procurar porque ele não sabe fechar uma pasta em aberto, e eu sou a pasta mais aberta que ele tem. Vai levar anos. Ele vai chegar até vocês."
"E se chegar?"
"Aí a senhora vai ter um problema que nenhum contrato resolve. Porque eu sou um homem razoável, doutora. Eu negocio. Eu li o papel."
Uma pausa.
"O meu filho não lê nada."
Clique.
O carretel continuou girando em fita branca por mais um minuto inteiro, e ninguém na sala se mexeu para desligar.
Eu fiquei ali sentado na cadeira de couro rachado, com quarenta graus de febre, um braço a menos e um ombro apodrecendo, no lugar mais limpo do mundo, ouvindo um chiado.
Quinze anos de merda e a única coisa que eu consegui pensar foi: ele falou de mim.
Ele estava sendo enterrado vivo por uma corporação de cemitério e usou os últimos vinte segundos de fita para avisar a mulher que ele tinha três filhos, e que um deles ia dar trabalho.
Eu passei a vida inteira convencido de que ele nunca tinha me visto. Que eu era ruído de fundo entre um plantão e outro, uma criança que ele cumprimentava a caminho da porta. Passei quinze anos endurecendo em cima dessa certeza. Construí tudo que eu sou naquela pedra.
E a pedra não estava lá.
E é aqui que eu preciso ser honesto sobre o que aquela fita me custou, porque não foi consolo.
Quinze anos de raiva bem organizada acabaram de virar lixo em vinte e dois minutos. Toda vez que eu quebrei um dente, toda vez que eu cruzei uma linha e dormi bem depois, toda vez que eu olhei para o Marco ou para o Vilar e pensei eu sou assim porque ninguém me ensinou outra coisa — eu estava construindo em cima de um homem que não existia. O pai ausente e indiferente que justificou tudo era invenção minha.
Perder um pai é uma coisa. Descobrir que você perdeu o pai errado — que você passou a vida inteira enterrando um sujeito que nunca esteve lá para ser enterrado — é outra, e não tem nome, e ninguém escreveu um manual.
Eu não ganhei nada naquela cadeira de couro. Eu perdi a última desculpa que eu tinha.
Meus olhos arderam e eu não fiz absolutamente nada a respeito, porque a mão boa estava ocupada segurando a mesa e a outra é uma garra industrial que Vasco parafusou nos meus nervos, e eu não ia usar uma prótese de açougueiro para enxugar isso.
— A pasta, — falei, e a voz saiu horrível. — Ele falou pasta em aberto.
— Sim, — Valéria disse.
— Ele sabia que eu ia chegar aqui.
— Ele calculou que você chegaria a algum lugar. Isto aqui é o lugar que sobrou.
Ela desligou o gravador. O silêncio construído voltou a ocupar tudo.
— E tem mais uma coisa, — ela disse.
— Não sei se eu aguento mais uma coisa.
— Você aguenta. — Sem crueldade. Sem calor. Uma leitura. — A Dra. Vance não apagou a fita. Ela tinha sessenta anos e autoridade total sobre este arquivo, e a instrução do seu pai continua gravada, arquivada, etiquetada e guardada na estante mais protegida desta instalação.
Levantei a cabeça devagar.
— Isso significa o quê?
— Significa que a mulher naquele berço guardou de propósito a única prova de que o Comissário Dante Moretti nunca foi cúmplice. — Valéria virou o rosto para o corredor branco, na direção da galeria dos berços, e o azul dos olhos dela cortou o escuro como um farol pequeno e frio. — Ela não estava guardando um ativo. Ela estava guardando um testamento.
— Por quê?
— Essa é a pergunta que vale a pena acordá-la para fazer.