Skip to content

Capítulo 232: O Justo

Não dormi.

Passei a noite no galpão, entre as pilhas do arquivo, com a lamparina baixa e uma pasta aberta no colo que eu não estava lendo. MORETTI, G. — EM CAMPO — NÃO COLETAR — GRUPO DE CONTROLE.

Duas caixas de papel, a três metros uma da outra, contando a mesma história de dois jeitos.

Numa, um homem que virou o que virou porque uma corporação decidiu isso por ele em mil novecentos e alguma coisa. Na outra, um homem amarrado numa rede lá fora dizendo que eu escolhi tudo, sozinho, numa terça-feira, e que a corporação não teve nada com isso.

As duas não podiam estar certas.

E às três da manhã eu entendi que estavam.


A Elena me achou às quatro.

Sentou no chão de novo, do mesmo jeito, e não trouxe copo dessa vez.

— Eu vou fazer, — falei.

— Eu sei.

— Você não vai tentar me impedir?

— Não. — Ela puxou os joelhos. — Eu passei a noite inteira tentando montar o argumento de que existe outra saída, Gabo, e eu sou boa nisso, é literalmente o meu ofício. Não tem. Se a gente soltar, ele volta. Se a gente prender, gasta uma pessoa por turno e ele sai. Se a gente deixar ali na rede, ele morre de sede em quatro dias e a gente assiste.

Ela olhou para mim.

— A única coisa que eu vim pedir é que você não minta pra si mesmo sobre o que isso é.

— Como assim?

— Você vai matar um homem desarmado e imobilizado. — A voz dela não tinha julgamento; tinha exatidão, que é pior. — Isso tem um nome, e o nome não é justiça, e não é legítima defesa, e não é execução de sentença porque não existe sentença. Você vai fazer porque é o menor dos males disponíveis, e isso é uma razão legítima, e continua sendo um assassinato.

Eu fiquei quieto.

— Se você chamar de outra coisa, — ela continuou, — daqui a dez anos você vai fazer de novo com menos cuidado. É assim que começa. Você mesmo me contou como começa.

— Elena.

— Fala.

— Escreve. — Eu olhei para ela. — Isso aqui. Amanhã. Com o meu nome, com a data, com a faca de catorze anos atrás, com tudo. Põe na tiragem junto com o Krell.

Ela levou um tempo.

— Você tem noção do que isso faz com você?

— Tenho. — Levantei, e o joelho reclamou. — É o que a Bia pediu numa lanchonete da Rua Ferrugem e eu não fiz. Eu não posso mais me entregar à Corregedoria porque não existe Corregedoria. Só sobrou a sua prensa.


Fui ao portão às cinco e vinte, com o céu ainda cinza.

Ele estava acordado. Acho que ficou acordado a noite toda também, do mesmo jeito, olhando para o mesmo céu de lados opostos de uma rede de carga.

— Bom dia, Sr. Moretti.

— Bom dia, Braga.

Ele reparou na minha mão. Eu estava com a Caronte apoiada no ombro pela alça, porque com um braço só não dá para carregar de outro jeito.

— Ah, — ele disse. E foi só isso. Um "ah" pequeno, de quem confere uma encomenda que chegou.

A Valéria estava na passarela. Não desceu. Não falou. Ficou lá em cima com os olhos azuis apagados, e eu agradeci por isso.

Agachei ao lado dele.

— Antes eu quero dizer duas coisas.

— O senhor tem o meu tempo.

— A primeira. — Respirei. — Eu não vou dizer que fiz certo há catorze anos. Eu fiz errado. Não errado de detalhe, não errado de procedimento: errado. Eu tinha razão sobre você e eu fiz errado assim mesmo, e as duas coisas cabem juntas, e eu levei catorze anos para conseguir dizer isso em voz alta.

Ele ficou muito quieto.

— A segunda. — E essa foi mais difícil. — Você está errado sobre a sua filha.

— Não me venha—

— Você não perdeu a Marta porque eu tive pressa numa terça. — Falei devagar, porque eu precisava que entrasse. — Você perdeu a Marta porque você matou a mãe dela com uma chave de grifo, no dia vinte e três de agosto, na frente do fogão. Naquele minuto aquela menina ficou órfã de mãe e filha de assassino, e nada do que eu fiz ou deixei de fazer depois muda um grama disso.

Ele começou a respirar mais rápido. Foi a primeira vez.

— Eu forjei o inquérito, e isso é meu e eu carrego. — Continuei. — Mas a cadeia era sua. Você mesmo disse. E eu não vou te dar o presente de sair daqui achando que a sua vida foi culpa minha, porque isso é mentira e mentira é exatamente o que a gente está aqui resolvendo.

Silêncio no pátio.

E aí o Anselmo Braga chorou.

Não foi bonito. Não foi digno. Foi um homem enorme e destruído chorando de boca aberta debaixo de uma rede de carga, com os ombros presos, sem poder levar a mão ao rosto, e o som saía dele como coisa arrancada.

Levou um tempo.

— Eu sei, — ele disse, quando conseguiu. — Meu Deus, o senhor acha que eu não sei?

— Eu sei que você sabe.

— Eu precisava que fosse do senhor. — A voz falhou de novo. — Se fosse do senhor, dava pra carregar.

— Eu sei.

— Não dá pra carregar sendo meu.

— Eu sei, Braga.

Ele fechou os olhos e chorou mais um pouco, e eu esperei, e não tinha absolutamente nada que eu pudesse fazer com aquilo.


Quando ele parou, estava calmo. Calmo de verdade — não a calma de balcão, a outra.

— O senhor vai fazer agora?

— Vou.

— Posso pedir uma coisa?

— Pode.

— O caderninho está no bolso de dentro. — Ele mexeu o queixo na direção do peito. — Tem nome de gente que eu cobrei nesses três meses, tudo escrito, endereço e data. Nove pessoas. Umas deviam e outras não. — Ele engoliu. — Entrega pra jornalista. Deixa ela escrever tudo. Não tira nenhum.

— Eu entrego.

— E o Duarte Falcão é o último da lista, e do lado do nome dele está escrito "este não devia". Faz questão que ela publique essa parte.

— Faço.

Ele assentiu. Olhou o céu, que estava começando a clarear de verdade, com aquela luz cor de latão que a Velha Baía tem de manhã.

— É bonito aqui fora, — ele disse. — Catorze anos eu esqueci que amanhecia assim.

Depois:

— Sr. Moretti.

— Diz.

— Não fecha os olhos.


Eu não fechei.

Encostei o cano na testa dele, na altura da cicatriz, e ele não desviou, e eu não fechei os olhos, e ele estava me olhando quando eu puxei.

O estampido levantou os pássaros do canal inteiro.

Foi rápido. Ele não sentiu, provavelmente. E é isso que ninguém te conta sobre executar um homem rendido: não é difícil. É fácil. É a coisa mais fácil que eu fiz naquela semana, mais fácil que carregar caixa, mais fácil que subir a escada do poço, e o corpo faz sozinho, e leva um segundo.

O difícil é o depois, e o depois começa imediatamente.

Fiquei ali de joelhos, no cascalho, com um homem morto na minha frente e a arma pendurada na alça, e a única coisa que eu conseguia pensar era que ele estava certo.

Sempre pôde.

Quinze anos de código, de linha que eu não cruzava, de discurso na cara do Miranda e do Kael e do Marco sobre a diferença entre eu e eles — e no fim das contas eu sempre pude, e a única coisa que me segurava era não ter aparecido ninguém com uma conta boa o suficiente.

Ele apareceu. E eu paguei em um segundo.


Tirei o caderninho do bolso dele. Peguei a cinta laranja que ele usou no Duarte, que estava enrolada no cinto, e a catraca de aço, e joguei as duas no canal.

A Valéria desceu da passarela. Parou ao meu lado.

— Você quer o número agora? — ela perguntou.

— Que número?

— A probabilidade de existir outra saída. Você me impediu de calcular ontem.

Olhei para ela. Para o rosto que eu conheço melhor que o meu, sem ninguém em casa.

— Quanto era?

— Quatro por cento.

— Quatro. — Ri, e doeu. — Então existia.

— Existia. — Ela olhou para o corpo. — Envolvia deixá-lo sem as duas mãos e mantê-lo vivo por tempo indeterminado sob vigilância contínua, com uso de morfina que nós não temos. Eu classifiquei como tecnicamente disponível e humanamente inviável. — Uma pausa. — Foi a primeira vez que eu usei essa distinção desde o Modo de Segurança.

Eu levantei a cabeça devagar.

— Val.

— Não.

— Val, isso foi—

Não, — ela repetiu. — Ainda não. — E virou o rosto para o galpão, onde a Elena já estava acordando as prensas. — Mas eu registrei.

Ela foi buscar uma pá.

E eu fiquei mais um pouco de joelhos no cascalho, ao lado do único homem que a cidade inteira me mandou matar e que ninguém nunca vai saber que eu matei — a não ser que a mulher lá dentro imprima, o que ela vai imprimir, porque eu pedi.

O sol subiu de vez.

Cor de latão velho, indiferente como sempre.