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Capítulo 12: Cancelamento
O esgoto pluvial do Distrito da Névoa era um rio de lixo químico. Gabriel e Valéria caminhavam com água até os joelhos, guiados apenas pela luz fraca do relógio de Valéria.
— Minhas contas foram congeladas — disse Valéria de repente, parando. Ela olhava para o ar, para telas que só ela via. — Meu ID de cidadã... inválido. Gabo, eles me apagaram.
— Bem-vinda ao clube — disse Gabriel. — Ser um fantasma tem suas vantagens. Ninguém espera que você revide.
— Não, você não entende! — A voz dela subiu uma oitava. — Sem ID, eu não posso comprar comida. Não posso pegar transporte. Meus implantes... eles precisam de atualizações de licença diárias. Se eu não validar... eles desligam.
Ela tocou o olho biônico.
— Eu vou ficar cega em doze horas.
Gabriel parou e segurou os ombros dela.
— Vamos resolver isso antes.
— Como? Estamos no esgoto, falidos e sendo caçados pela cidade inteira!
— Vamos até a fonte. O bunker sob a Torre.
— É impossível entrar lá. A segurança é biometria de nível genético.
— Eu tenho a chave — Gabriel bateu no estômago, onde o chip estava. — E tenho você.
Eles continuaram. A caminhada durou horas, subindo pelos níveis da cidade através das artérias subterrâneas, evitando patrulhas de drones e scanners de rua.
Quando chegaram ao perímetro da Torre de Marfim, já era noite. A chuva havia parado, substituída por uma neblina densa que cobria o topo dos arranha-céus.
A entrada do bunker ficava em uma garagem de manutenção abandonada. Gabriel arrombou a porta com um pé-de-cabra.
Lá dentro, o ar era frio e estéril. Um elevador de carga esperava.
— Ele só desce — disse Valéria, hackeando o painel. — E só com autorização.
Gabriel colocou a mão no leitor. O sistema leu seu DNA, leu o chip em seu estômago.
— Bem-vindo, Comissário Moretti. — A voz do sistema era antiga, pré-guerra.
As portas se abriram.
Eles desceram. E desceram. O medidor de profundidade de Valéria enlouqueceu.
— Estamos abaixo do nível do mar — sussurrou ela. — Abaixo das fundações da cidade.
O elevador parou. As portas se abriram para uma escuridão absoluta.
Gabriel acendeu um sinalizador. A luz vermelha revelou uma caverna vasta, natural. E no centro, construída como um templo profano, estava a máquina.
Era um supercomputador gigantesco, pulsando com luz azul. Mas não era feito de silício. Era orgânico. Tubos de vidro cheios de fluido espinhal conectavam processadores a... coisas.
— O que é isso? — Valéria recuou.
— O Shadowban — disse uma voz vinda da escuridão.
Luzes se acenderam.
Cercando-os, havia dezenas de figuras. Pessoas vestidas com trapos cinzas, sem rosto. Suas faces haviam sido removidas digitalmente de qualquer registro, e fisicamente cobertas por máscaras lisas.
E na frente deles, uma figura familiar.
Roberto Miranda.
Mas ele estava diferente. Vestia um terno caro, limpo. Seu braço mecânico fora substituído por um modelo de última geração.
— Miranda? — A voz de Gabriel era um fio de incredulidade. O homem que ele considerava um amigo, um parceiro de trincheira na guerra contra o sistema, estava ali, no coração da besta. — O que você fez?
— Eu fiz o que você não teve coragem de fazer, Gabo. Eu escolhi o lado que vence. — O sorriso de Miranda não alcançou os olhos. Havia um cansaço ali, mas também uma ponta de desprezo. — Você achou mesmo que a gente ia mudar o mundo com um blog e uma pistola? A gente reclamava da cidade doente, mas era ela que nos mantinha vivos.
— Eles te compraram. Esse terno, esse braço... — Gabriel cuspiu as palavras. A dor da traição era mais afiada que qualquer faca. — Por quanto você vendeu sua alma, Roberto?
— Eu não vendi,— Eu sou eles. — Miranda abriu os braços. — Ou pelo menos, sou o gerente do turno da noite. O Marco Moretti acha que controla isso, mas ele é só um usuário com privilégios de admin. Seu pai construiu a jaula, garoto. Eu só estou cobrando o ingresso. O verdadeiro poder... está aqui embaixo. Este lugar... — ele gesticulou para a máquina orgânica — ...é o motor da cidade. Ele funciona com os "cancelados", os indesejáveis. Nós os reciclamos. Transformamos o lixo social em poder de processamento.
Gabriel olhou para as figuras mascaradas, para o vazio onde deveriam estar seus rostos, e sentiu o estômago gelar.
— Você está usando pessoas como combustível.
— E qual a diferença do que a cidade sempre fez? — Miranda riu, um som oco e sem alegria. — Pelo menos aqui eles têm um propósito. São úteis. Você sempre foi sentimental, Gabo. Via pessoas onde eu só via peças no tabuleiro.
Ele estendeu a mão, não como um convite, mas como uma ordem.
— Chega de brincar de herói. Me dê o chip do seu pai. Ele pertence ao sistema. E eu te dou uma vida de verdade, não essa caça às bruxas. Você pode ter tudo o que sempre quis. Poder, segurança... uma identidade.
Gabriel olhou para Valéria. Ela estava tremendo, seus implantes começando a falhar.
Ele olhou para Miranda.
— Eu tenho uma contraproposta.
Gabriel sacou a arma e atirou não em Miranda, mas no tanque de resfriamento principal da máquina orgânica.
