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Capítulo 4: A Torre de Marfim
A Torre Aeterna não pertencia a Baía Cinzenta. Era um corpo estranho, um implante de luxo em um organismo necrosado. Enquanto a cidade abaixo se afogava em smog e chuva ácida, a torre perfurava as nuvens, brilhando sob o sol que os pobres haviam esquecido que existia.
Gabriel não foi direto para a porta da frente. Ele sabia que tentar entrar na Aeterna Corp sem convite era como tentar arrombar um cofre de banco com um palito de dente. Em vez disso, ele parou o Cobalt a dois quarteirões de distância, em um beco escuro, e observou.
Limusines antigravitacionais deslizavam silenciosamente até a entrada, depositando a elite da cidade para o que parecia ser um evento de gala. O "Baile da Evolução", diziam os outdoors holográficos.
Enquanto ajustava o binóculo, sua visão embaçou por um segundo. Um flash de memória. O cheiro de lavanda e o som suave da caneta de prata no papel.
"Você tem medo de entrar lá, Gabriel?" A voz da Dra. Cecília Weiss ecoou em sua mente.
"Eu não tenho medo de prédios, Doutora."
"Não do prédio. Do que ele representa. Você diz que a tecnologia é fria, mas eu vejo suas mãos tremerem. Você sabe que a máquina não erra, e isso te aterroriza. Porque se a máquina é perfeita, o erro é sempre humano. E você se sente... defeituoso."
Gabo sacudiu a cabeça, apertando o Colar de Sol com força até a dor silenciar a voz da terapeuta. "Eu não sou defeituoso, Cecília. Eu sou o único que ainda funciona sem bateria."
Ele saiu do carro. No caminho para a doca de carga, ele ouviu o som inconfundível de carne sendo atingida. Um baque surdo, seguido de um gemido abafado.
Em um beco lateral, três figuras cercavam um homem caído. As silhuetas eram esqueléticas, tremendo sob a garoa ácida como se estivessem em curto-circuito. Eram "Drenados" — viciados em Lázaro no estágio terminal, onde a droga já havia consumido a gordura, o músculo e a moral, deixando apenas o desejo elétrico.
— Passa o crédito! — sibilou um deles, chutando o homem no chão. Sua voz era um chiado de estática. — Preciso... preciso logar... a nuvem tá chamando...
O homem no chão tentou se proteger, mas os Drenados eram movidos por um desespero que transcendia a força física. Eles não queriam comida. Queriam dados. Queriam a próxima dose digital que fritaria mais um pedaço de seus lobos frontais.
Gabo não sacou a arma. Pólvora atrairia os drones da segurança privada. Ele avançou silenciosamente, agarrando o Drenado mais próximo pelo colarinho sujo e arremessando-o contra uma caçamba de lixo. O corpo do viciado bateu com um som oco, leve demais.
Os outros dois viraram-se, os olhos brilhando com uma luminescência azulada e doentia — o sinal da overdose iminente. Um puxou uma faca feita de vidro de fibra ótica afiado.
— Erro de sistema... — murmurou o viciado, avançando. — Eliminar obstáculo...
Gabo desviou da estocada desajeitada e acertou um soco curto no plexo solar do agressor. O viciado dobrou-se, vomitando um líquido prateado. O terceiro fugiu para as sombras, gritando códigos binários desconexos.
Gabo se agachou ao lado da vítima. Era um homem vestindo o uniforme cinza rasgado dos estivadores do porto.
— Ei, amigo — Gabo ajudou-o a se sentar. — Você está bem?
O homem agarrou o braço de Gabo, tremendo. O sangue escorria de um corte na testa, misturando-se à graxa do rosto.
— Eles não param... eles estão em toda parte agora... — o homem balbuciou, ignorando a própria dor. — Eu só queria voltar pra casa. Perdi meu turno. A Série-K... empilhadeiras que pensam. Eu trabalhei lá por trinta anos. Krell disse que era "otimização". Agora eu sou lixo, e o lixo me ataca.
Gabo sentiu a raiva queimar no peito, fria e dura. O "progresso" de Krell não apenas tirava os empregos; criava os monstros que caçavam os desempregados.
— Fique aqui — Gabo colocou uma nota de crédito amassada na mão do homem. — Vou ter uma conversinha com o seu chefe.
Ele precisava de um jeito de entrar. E o jeito veio não de um disfarce, mas de um erro. Uma porta de manutenção no nível do subsolo estava com a trava magnética piscando.
ACESSO CONCEDIDO: USUÁRIO ARIA.
Gabo olhou para o painel digital. O nome brilhava em verde.
— Você está brincando comigo — sussurrou ele para o fantasma em sua cabeça. — Você abre portas agora?
Nenhuma resposta. Apenas o som da trava se abrindo com um clique pesado.
Gabo entrou. O corredor de serviço cheirava a ozônio e produtos de limpeza caros. Ele subiu as escadas de emergência, evitando as câmeras com a ajuda de glitches convenientes que desligavam os sensores segundos antes dele passar.
O salão de festas ficava no 150º andar. As paredes eram de vidro inteligente, mostrando a cidade lá embaixo como um mapa de luzes tristes. A música era suave, tocada por uma orquestra de androides indistinguíveis de humanos.
Gabriel escaneou o ambiente. Viu políticos, magnatas da tecnologia, chefes de gangues "legitimados". E no centro de tudo, Marco Moretti.
Seu irmão estava mais polido do que nunca. Terno de seda de aranha, um sorriso treinado, segurando uma taça de champanhe como se fosse um cetro. Mas ele não era o centro das atenções.
O centro era um homem pequeno, de não mais que um metro e trinta e cinco, sentado em uma cadeira flutuante ornamentada que o deixava na altura dos olhos dos outros convidados.
Viktor Krell.
O CEO da Aeterna parecia uma criança vestida de imperador, mas seus olhos — dois orbes de safira cibernética — irradiavam uma maldade antiga. Ele gesticulava com uma bengala de titânio negro, e os magnatas ao redor dele, homens com o dobro de seu tamanho, encolhiam-se como colegiais.
Gabriel, ainda com o sobretudo molhado e botas sujas de lama, caminhou em direção a eles. O contraste com os convidados de gala era um grito visual. Ele pegou uma taça de uma bandeja que passava, bebeu em um gole só para acalmar os nervos, e se infiltrou no círculo de conversa.
— ...a eficiência energética do Distrito 4 aumentou 20% desde que implementamos o racionamento neural — dizia Krell, sua voz um barítono surpreendentemente profundo. — Os pobres não precisam de tanta largura de banda cognitiva. Eles só precisam saber obedecer.
— O problema, Viktor, é o subproduto — Marco interveio, sua voz suave e política, feita para acalmar investidores. Ele girava sua taça de champanhe, observando as bolhas subirem. — A taxa de criminalidade nas zonas de transição subiu 15%. Viciados, Drenados... eles atacam trabalhadores honestos por migalhas de conexão. Acabei de receber um relatório de um incidente na doca de carga agora mesmo. É... inestético.
Krell sorriu, mas seus olhos permaneceram frios.
— Inestético. Uma palavra curiosa para "desespero", Marco.
— É uma questão de saúde pública — continuou Marco, ignorando a provocação. — Por isso a Prefeitura vai aprovar a "Iniciativa Nova Alvorada" na próxima semana. Recolhimento compulsório. Vamos tirar essas cascas vazias das ruas e colocá-las em... centros de tratamento.
— Tratamento? — Krell ergueu uma sobrancelha, divertido. — Você quer dizer as minhas instalações de processamento biológico da LifeGen?
— Chame como quiser, desde que limpe as ruas — Marco deu de ombros, pragmaticamente cruel. — Se eles querem tanto se conectar à sua rede, Viktor, vamos dar a eles uma conexão permanente. Eles deixam de ser um problema e viram... infraestrutura.
— E o preço da vida humana? Qual é a cotação hoje na bolsa de valores? — interrompeu Gabriel, surgindo atrás deles como um fantasma de um passado moral que ambos haviam esquecido.
O silêncio caiu como uma guilhotina. Marco virou-se, o sorriso falhando por um milissegundo antes de se recuperar.
— Gabriel. — O tom era de quem encontra um cachorro molhado no sofá da sala. — Eu não sabia que você tinha sido convidado. E... cheirando a esgoto? As coisas estão tão difíceis assim na polícia?
Alguns convidados riram educadamente, torcendo os narizes para o cheiro de chuva ácida que emanava de Gabo.
— É o cheiro da cidade que você governa, Marco. O cheiro que os filtros de ar da sua torre não conseguem esconder. — Gabriel virou-se para Krell. — Sr. Krell. Belo evento. Celebração pelo novo contrato com a Prefeitura ou pelo exército de desempregados que suas máquinas criaram no porto?
Krell girou sua cadeira flutuante lentamente. Ele olhou para Gabriel de cima a baixo, como um entomologista analisando um besouro.
— Detetive Moretti. O filho pródigo. — Krell sorriu, revelando dentes perfeitamente alinhados. — Desemprego é uma palavra feia. Eu prefiro "liberação de mão de obra para tarefas mais... criativas".
— Criativas como morrer de fome? Ou como virar cobaia no Projeto Lázaro?
A menção do projeto fez Marco empalidecer. Krell, no entanto, apenas riu. Uma risada seca, sem humor.
— Você tem a ousadia do seu pai, Detetive. Dante também não sabia quando parar. Ele era um homem... robusto. Grande. — Krell apertou o punho de sua bengala. — Eu sempre apreciei como os grandes caem fazendo tanto barulho.
— Eu tenho a foto, Krell. A foto do meu pai. O que o "Taxidermista" tem a ver com vocês?
— Tudo está conectado, Detetive. O caos que você vê nas ruas... é apenas a matéria-prima. Nós vendemos a ordem.
— Você está cansado, Gabriel. Emocional. Talvez devesse aceitar um drinque e ir para casa.
Krell fez um gesto quase imperceptível com a bengala. Da sombra de uma coluna, uma figura se destacou.
Kael. "O Cirurgião".
Ele não usava terno, mas um traje tático de gala. Suas mãos estavam enluvadas, mas Gabriel sabia o que havia por baixo: aço e morte.
— Acompanhe o Sr. Moretti até a saída — ordenou Krell. — Mas não o quebre... ainda. Ele me diverte.
Kael avançou. Gabriel sabia que não podia vencer numa luta corporal, não contra um ciborgue de combate classe militar. Mas ele não precisava vencer. Precisava de uma cena.
Ele agarrou a toalha da mesa mais próxima e puxou. Cristais, garrafas caras e pratos de caviar voaram, estilhaçando-se no chão com um estrondo que parou a festa inteira.
— Sorriam para as câmeras! — gritou Gabriel, erguendo o distintivo manchado de sangue. — O show de horrores começou! Fachada bonita escondendo sujeira!
Kael o alcançou antes que ele pudesse dar mais um passo. O movimento foi um borrão. Gabriel sentiu um impacto no estômago que tirou todo o ar de seus pulmões, seguido por uma rasteira que o fez bater o rosto no chão polido.
O ciborgue colocou uma bota pesada sobre as costas de Gabriel, pressionando a coluna.
— Sem show, Detetive — a voz de Kael era um zumbido sintetizado, sem entonação humana.
Marco se ajoelhou ao lado do irmão, perto do ouvido dele.
— Você é um idiota, Gabo. Você veio aqui latir, mas não tem dentes. Saia antes que ela mande ele quebrar sua espinha. Eu não posso te salvar duas vezes.
— Pergunte a ela... sobre o dia 14 de Outubro... — engasgou Gabriel.
Marco hesitou. Havia dúvida em seus olhos. Mas ele se levantou e fez um sinal para os seguranças.
— Tirem ele daqui. Joguem na rua.
Enquanto era arrastado pelos corredores de serviço, sangrando pelo nariz, o comunicador de Gabriel vibrou no bolso. Ele conseguiu pegá-lo antes de ser jogado na sarjeta fria fora da torre.
Uma mensagem. Criptografada. Mas a chave era a data no relógio da foto.
"Você faz muito barulho, Detetive. Se quiser respostas, pare de gritar e comece a ouvir. O Padre está esperando no confessionário. Estação Central abandonada. Linha Vermelha. Venha sozinho. Traga o perdão, ou traga munição."
Gabriel se levantou, limpando o sangue da boca com as costas da mão suja de lama. Ele cuspiu um coágulo escuro no asfalto molhado e tocou o lábio partido. Ardia como o inferno, mas os dentes ainda estavam todos lá.
— Ótimo — resmungou, sentindo o gosto de ferro e tocando o Colar de Sol sob a camisa para se certificar de que ainda estava inteiro. — Menos mal.
A chuva lavava a humilhação externa, mas deixava a fúria intacta.
— Estação Central — murmurou ele, mancando em direção ao carro. — Miranda. O homem morto vai falar.
