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Capítulo 54: Fé e Ferrugem

Dia 45 do Dilúvio - Distrito da Ferrugem

O Cobalt de Gabo gemia a cada curva. O motor engasgava, cuspindo óleo negra que se misturava à névoa da cidade. A suspensão rangeu violentamente ao passar por cima de um hidrante submerso, fazendo o carro balançar como um barco bêbado.

— Essa lata velha vai nos matar antes do inimigo — reclamou Valéria, segurando-se no painel do passageiro.

— Respeite o ancião — rosnou Gabo, batendo no volante para o painel de instrumentos voltar a funcionar. — Ele é o único que não tem chip de rastreamento.

Gabo estacionou diante da Catedral de Ferro. Era uma estrutura gótica monstruosa, cujos vitrais haviam sido substituídos por chapas de metal reciclado. A água barrenta lambia os degraus da entrada, transformando o adro em um porto improvisado para centenas de desabrigados em botes de lixo.

— Por que estamos aqui, Gabo? — perguntou Val. — Deveríamos estar caçando o Marco.

— Informação. E munição espiritual, talvez. — Gabo abriu a porta, pisando na água até o tornozelo.

As órteses em suas pernas emitiram um zumbido agudo e preocupante. A luz de carga no cinto de Gabo piscava em amarelo intermitente. "Bateria Baixa". Ele ignorou. Só precisava que durasse mais algumas horas.

Dentro da catedral, o cheiro de incenso brigava com o odor de roupa molhada e sopa comunitária. O Padre Miguel, um homem corpulento com braços tatuados sob a batina, distribuía pão para uma fila interminável de refugiados.

— Gabriel Moretti — disse o padre, sem parar de servir. — Veio se confessar ou se esconder?

— Vim saber o que está acontecendo nas ruas, Miguel. Meus informantes desapareceram.

O padre limpou as mãos em um pano.

— Eles não desapareceram, filho. Foram coletados.

Antes que Gabo pudesse perguntar, um som de metal esmagando metal ecoou lá fora. Gritos.

Gabo e Val correram para a porta.

Três figuras humanoides marchavam pela água. Eram os Protótipos CP-Z. Robôs policiais de dois metros de altura, pintados de preto fosco, com cabos e pistões expostos como vísceras mecânicas.

ATENÇÃO CIDADÃOS — a voz dos robôs era distorcida, cheia de estática. — ESTA ÁREA FOI DECLARADA ZONA DE RISCO BIOLÓGICO. EVACUAÇÃO OBRIGATÓRIA PARA OS CAMPOS DE TRIAGEM.

Um dos mendigos, um velho sem pernas em uma cadeira de rodas improvisada, tentou argumentar.

— Não podemos sair! É a nossa única...

O robô mais próximo ergueu um cassetete elétrico e golpeou. O som de ossos quebrando foi audível mesmo sob a chuva.

Gabo viu vermelho.

A impaciência que vinha fervendo nele há semanas explodiu. Ele não pensou. Ele ativou os servos das órteses no máximo.

— Gabo, não! — gritou Val.

Gabo saltou os degraus da catedral, aterrissando na água com um estrondo. Ele sacou a escopeta "Caronte" e disparou à queima-roupa no peito do primeiro robô.

O impacto jogou a máquina para trás, faíscas voando. Mas os outros dois giraram instantaneamente, os olhos vermelhos focando nele.

AMEAÇA DETECTADA. NÍVEL 5. EXECUTAR.

Gabo largou a escopeta vazia e avançou. Ele usou a força hidráulica das pernas para chutar o joelho do segundo robô, dobrando o metal titânio como se fosse papel alumínio.

Ele socou a "cara" do robô, destruindo os sensores óticos. Ele queria destruir. Queria esmagar. Cada golpe era por sua mãe, por Clara, por Dante.

Mas o terceiro robô o flanqueou. Um bastão de choque atingiu suas costas.

Gabo rugiu de dor, caindo de joelhos. As órteses travaram.

BZZZZT.

A luz da bateria ficou vermelha e apagou. As pernas de Gabo tornaram-se peso morto.

O robô ergueu o bastão para o golpe final.

PAREM! — A voz do Padre Miguel trovejou, amplificada por um megafone.

O padre estava parado na entrada, segurando não uma arma, mas uma cruz de ferro maciço. Atrás dele, dezenas de refugiados seguravam pedras, pedaços de pau, o que tivessem.

Os robôs calcularam as probabilidades.

RETIRADA TÁTICA. DADOS ENVIADOS. — As máquinas recuaram, arrastando o companheiro danificado, desaparecendo na névoa.

Val correu até Gabo, ajudando-o a se sentar.

— Você está maluco?! — ela gritou, verificando os sinais vitais dele.

O Padre Miguel se aproximou. Ele olhou para o robô destruído, depois para Gabo.

— Violência gera ferrugem, Gabriel — disse o padre, triste. — Você salvou um hoje, mas condenou todos nós a sermos alvos amanhã.

— Eles iam matar o velho — cuspiu Gabo, tentando soltar as travas das órteses inúteis.

— E agora eles sabem onde estamos. — O padre suspirou. — Você não pode socar o mundo até ele consertar, Gabriel. Seu pai sabia disso.

Gabo conseguiu se livrar das pernas mecânicas. Ele tentou ficar de pé, cambaleando. A dor na coluna voltou, aguda, real.

— Meu pai está morto, Miguel. E a diplomacia morreu com ele.

Gabo mancou até o carro, apoiado em Val.

— Vamos embora — disse ele. — As órteses acabaram. De agora em diante, é na raça.

Enquanto o Cobalt se afastava, Gabo olhou pelo retrovisor. Viu o padre ajudando o mendigo ferido. Viu a esperança nos olhos daquelas pessoas. E sentiu-se pequeno. E sujo.

No painel do carro, o rádio da polícia, hackeado por Val, captou uma transmissão codificada vinda dos robôs em retirada.

Unidade CP-Z reportando ao Chefe Miranda. Alvo localizado. A Isca está pronta.