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Metadados
- Título: Natureza Morta
- Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
- Localização: Necrópole (Subnível 6 - A Galeria)
- Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente)
- Resumo: O grupo é emboscado por experimentos biológicos falhos ("Abortos") na antessala do santuário do Taxidermista. Aria demonstra sua nova eficiência letal, enquanto Gabo luta para proteger Rangel usando combate corpo a corpo. Eles alcançam a "Galeria", um salão de preservação onde o horror se torna arte estática.
Narrativa
Capítulo 137: Natureza Morta
O cheiro de formol era tão forte que fazia os olhos lacrimejarem. Não era apenas o odor químico de preservação; havia algo podre por baixo, como carne deixada ao sol e depois mergulhada em perfume barato para disfarçar.
Gabo tossiu, cobrindo o nariz com a gola da jaqueta. O gosto metálico do sangue em sua boca se misturava com o ar ácido.
— Ventilação inoperante — Aria informou, sua voz ecoando no corredor de azulejos brancos encardidos. — Concentração de formaldeído em 150 ppm. Exposição prolongada causará irritação respiratória e danos neurológicos leves. Sugiro aumentar o ritmo.
— Estamos indo o mais rápido que dá — Valéria retrucou, ajudando Gabo a firmar a maca improvisada. — O Rangel não aguenta correr.
O corredor se abriu em uma câmara circular. O teto era alto, perdendo-se na escuridão, mas o chão estava iluminado por luzes de emergência amareladas que piscavam em ritmo arrítmico.
— Parar — Aria ordenou, estendendo o braço. — As assinaturas térmicas. Elas convergiram.
Gabo soltou a maca devagar e sacou o pedaço de vergalhão enferrujado que recolhera nos escombros do nível anterior. O peso do ferro era reconfortante, mas insuficiente. Sem sua arma, ele se sentia nu.
Das sombras nas extremidades da sala, formas começaram a emergir. Eram pequenas, do tamanho de crianças, mas moviam-se com uma velocidade errática, espasmódica.
— O que são essas coisas? — Valéria sussurrou, recuando para perto de Rangel.
— Rejeitos — Aria respondeu. — Tentativas falhas de integração. O Taxidermista os chama de "Abortos".
As criaturas entraram na luz. Eram massas de carne crua e músculo exposto, sem pele. Algumas tinham membros extras enxertados de forma grosseira; outras arrastavam cabos e placas de metal fundidos à carne. Elas não tinham olhos, apenas bocas escancaradas cheias de dentes irregulares.
Um guincho agudo rompeu o silêncio, e a matilha avançou.
— Protejam a carga — Aria disse, e desapareceu em um borrão de movimento.
A primeira criatura saltou em direção a Gabo. Ele girou o vergalhão, acertando a massa de carne no ar com um crack úmido. A coisa caiu se debatendo, mas outra já estava em suas pernas, mordendo o couro da bota.
Gabo chutou o monstro, sentindo a dor explodir em seu joelho. Ele usou a dor. Foco. Ele cravou a ponta do vergalhão no crânio da criatura, sentindo o osso ceder.
— Valéria, esquerda! — ele gritou.
Valéria brandiu sua lanterna pesada como um porrete, acertando uma criatura que tentava alcançar a maca.
Mas era Aria quem dominava o caos. Ela não lutava; ela executava. Com uma precisão cirúrgica, ela interceptava as criaturas no ar. Um golpe seco na base do crânio. Um chute calculado para quebrar a coluna. Ela se movia entre os monstros como uma dançarina em um matadouro, sem desperdiçar um único movimento.
Não havia raiva. Não havia medo. Apenas eficiência.
Uma das criaturas conseguiu passar pela defesa de Aria e se lançou sobre Rangel. Antes que Gabo pudesse reagir, Aria girou. Ela não tentou puxar a criatura; ela simplesmente pisou em seu pescoço com força hidráulica total. Houve um som de esmagamento, e a cabeça da coisa se tornou uma pasta no chão.
O sangue espirrou no rosto de Rangel, mas Aria nem piscou.
— Ameaças neutralizadas — ela anunciou, parada no meio de uma dúzia de cadáveres contorcidos. Seu uniforme estava limpo, exceto pela bota direita.
Gabo olhou para ela, ofegante. A frieza com que ela havia dizimado as criaturas era aterrorizante. Aquela não era a Bia. Nem mesmo a sombra dela.
— Você está bem? — ele perguntou para Valéria, que tremia segurando a lanterna.
— Estou... estou. Vamos sair daqui.
Eles pegaram a maca novamente e avançaram para a grande porta dupla no final da câmara. Aria a empurrou sem esforço.
O que encontraram do outro lado fez Gabo esquecer a dor e o cansaço.
Era um salão imenso, lembrando a nave de uma catedral gótica, mas feito de metal e vidro. Fileiras intermináveis de tanques cilíndricos se estendiam até onde a vista alcançava, cada um iluminado por uma luz interna azulada.
Dentro dos tanques, flutuando no formol, estavam as "obras".
Pessoas. Ou o que restou delas.
Membros substituídos por ferramentas industriais. Torsos abertos revelando mecanismos de relógio feitos de osso e latão. Rostos congelados em expressões de êxtase ou agonia eterna. Era um museu de horrores, organizado com uma simetria perturbadora.
— A Galeria — Valéria sussurrou, a voz cheia de repulsa.
No centro do salão, dominando o espaço, havia um tanque maior que os outros, elevado sobre um pedestal. Dentro, uma figura colossal flutuava em suspensão. Era uma fusão grotesca de múltiplos corpos, unidos para formar uma espécie de titã biomecânico, com dezenas de braços e cabos que saíam de sua espinha como raízes de uma árvore morta.
— Assinatura térmica principal identificada — Aria disse, apontando para o titã. — Estado: Inativo. Preservado.
Gabo se aproximou do tanque central, hipnotizado pelo horror. O rosto da criatura principal era uma máscara de metal sem traços, mas o peito subia e descia levemente. Ainda está vivo.
De repente, o som de estática crepitou em alto-falantes invisíveis.
— A beleza da carne é sua impermanência — uma voz suave, culta e profundamente cansada preencheu o salão. — Mas eu ofereço a eternidade. Bem-vindos à minha curadoria, Detetive Moretti. Eu estava esperando por uma crítica.
Gabo apertou o vergalhão até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele conhecia aquela voz. O homem que havia transformado a cidade em um necrotério particular.
— Onde você está? — Gabo rosnou para o ar vazio.
— Eu estou em toda parte. Na arte. Na preservação. Mas, fisicamente... — As luzes do salão piscaram e se fixaram em uma porta lateral que se abriu com um silvo hidráulico. — Estou no estúdio. Venham. O vernissage está prestes a começar.