Skip to content
Imagem do Capítulo

Capítulo 21: Lar, Doce Inferno

Antes de irem para a Torre, Gabo precisava de uma coisa. "Leviatã". Seu Lançador Modular. Ele estava no porta-malas do Cobalt, estacionado perto de seu apartamento.

Eles voltaram para a cidade, movendo-se pelos becos.

Quando chegaram ao prédio de Gabo, as luzes estavam acesas.

— Você deixou as luzes ligadas? — perguntou Valéria.

— Não.

Gabo correu, ignorando a discrição. Ele subiu as escadas de três em três degraus.

A porta do apartamento estava arrombada.

Lá dentro, o caos. Móveis quebrados, livros rasgados. E no meio da sala, sentada em uma cadeira, amarrada e amordaçada, estava Elena.

Sua ex-esposa.

— Elena! — Gabo correu para desamarrá-la.

Mas ela negou com a cabeça freneticamente, os olhos arregalados de terror. Ela olhou para o peito.

Gabo parou.

Havia uma bomba presa ao peito dela. Um display digital contava regressivamente: 05:00.

E ao lado da bomba, um bilhete.

"O Herói sempre tem uma fraqueza. Escolha: A Torre ou a Esposa?"

— Filhos da puta — sussurrou Gabo.

Valéria entrou no apartamento, ofegante. Ela viu a bomba.

— C4 com detonador de mercúrio — diagnosticou ela instantaneamente. — Se mexer, explode. Se o tempo acabar, explode.

Gabo tirou a mordaça de Elena.

— Gabo, sai daqui! — ela gritou, a voz rouca pelo pânico. — É uma armadilha! Eles querem te atrasar!

— Eu não vou a lugar nenhum — disse Gabo, sua voz perigosamente calma enquanto seus olhos traçavam os fios coloridos. Ele olhou para Valéria, a urgência endurecendo suas feições. — Val, consegue?

Valéria ajoelhou-se, seus aprimoramentos ópticos brilhando enquanto escaneava o dispositivo.

— É um quebra-cabeça doentio. C4 com um gatilho de mercúrio e múltiplos circuitos falsos. O invólucro é sensível à pressão. Se eu tentar remover, explode. Preciso de dez minutos para desarmar com segurança.

— Temos quatro — disse Gabo, o maxilar travado.

Elena sacudiu a cabeça, lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Não, Gabo. Por favor. A cidade... o que você começou... é maior do que eu. É maior do que nós. Vá. Me deixe.

Gabo parou de analisar a bomba e olhou nos olhos dela. O caos do apartamento, o tique-taque do relógio, tudo desapareceu. Havia uma aceitação terrível em seu rosto, uma que ele se recusava a espelhar.

— Eu já perdi tudo uma vez, Elena. Perdi meu parceiro, minha carreira, perdi você. Não vou perder mais ninguém. Se esta cidade precisa de um mártir, que seja eu. Mas não vou deixar você para trás.

Ele se virou para Valéria, uma nova determinação queimando em seus olhos.

— Plano B. Força bruta.

— Não existe força bruta com mercúrio! — protestou Valéria.

— Existe se você mudar o estado dele — Gabo correu para a cozinha, arrancando a porta da geladeira velha com um puxão violento. Ele enfiou a mão por trás, ignorando a dor, e rasgou o compressor. O gás refrigerante sibilou, gelado.

— Não é nitrogênio, mas é frio pra cacete! — Gabo voltou com o tubo vazando, a névoa branca sibilando.

Ele olhou para o sensor de mercúrio. Era pequeno, delicado. Se o jato de gás empurrasse o mercúrio, explodiria.

— Val, eu vou segurar o sensor — disse Gabo. — Vou congelar minha mão junto com ele para estabilizar.

— Gabo, isso vai necrose seus dedos!

— Melhor os dedos do que a Elena. Corta o fio vermelho quando eu der o sinal. Se explodir, eu levo o impacto.

Gabo não esperou. Ele agarrou o sensor com a mão esquerda nua e aplicou o gás. A dor foi imediata, como se mil agulhas de vidro perfurassem sua pele. O frio queimava mais que fogo. Ele viu a pele dos dedos ficar branca, depois cinza.

O contador congelou em 00:03.

— AGORA, PORRA! — gritou ele, os dentes trincados de agonia. Nesse tempo, você corta o fio do detonador.

— E qual é o fio do detonador?! O vermelho ou o azul?

— Escolha um. Se errar, o problema acaba para todos nós.

O contador tremeu em 00:02.

— Faça! — gritou Valéria.

Gabo apontou o tubo para o coração da bomba. O gás jorrou, cobrindo o sensor de mercúrio com uma camada de gelo. O display digital tremeluziu, os números congelando em 00:03.

— AGORA!

Com a mão firme, Valéria enfiou seu canivete na fiação e cortou o fio vermelho.

Um silêncio ensurdecedor.

O display se apagou. A luzinha vermelha piscou uma última vez e morreu.

Gabo caiu de joelhos, o ar saindo de seus pulmões num silvo. Ele não abraçou Elena imediatamente. Ele apenas ficou ali, a cabeça baixa, o alívio tão pesado quanto o medo. Ele tinha escolhido. Ele tinha se recusado a sacrificar outra pessoa, mesmo que isso significasse o sacrifício de todos.

Elena, soluçando, conseguiu se desvencilhar das cordas soltas. Ela não o abraçou. Em vez disso, pegou uma pasta escondida sob a cadeira.

— Eles não vieram só por mim, Gabo. Vieram por isto.

Ela estendeu a pasta.

— O que é? — perguntou ele, a voz rouca.

— Um seguro de vida. Do seu pai. Ele me entregou semanas antes de... morrer. Disse que você não estava pronto, mas que um dia precisaria.

Gabo abriu a pasta. Plantas. Códigos. A arquitetura completa da Torre de Transmissão.

— Controle total... — sussurrou Valéria, olhando por cima do ombro dele. — Gabo, isso... isso não é só para desligar a Rede. É para tomar o controle dela.

Gabo olhou para a janela, para a silhueta da Torre contra o céu doente. A verdade o atingiu, não como um raio, mas como um peso esmagador.

— Ele não é o vilão. Ele é a bateria. O Gamemaster o está usando.

Ele se levantou, o corpo dolorido, mas a mente afiada. Beijou a testa de Elena, um gesto rápido, final.

— Fique aqui. Tranque tudo.

— Onde você vai?

Valéria já estava na porta, segurando o lançador "Leviatã" que recuperara do carro. A arma parecia uma extensão sombria de sua própria determinação.

— Vou buscar meu pai — disse Gabo, a voz ressoando com o peso de uma promessa antiga. — E vou queimar o resto até as cinzas.

Eles saíram para a noite. A Tempestade Final havia chegado.


FIM DA PARTE V