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Capítulo 189: A Sentinela de Biomassa
A porta selada à nossa frente não era apenas uma barreira física; era um pulmão de aço e carne. O metal do selo de segurança nível Sete havia sido fundido com um tecido bioluminescente vermelho-púrpura. Raízes que pareciam artérias dilatadas pulsavam lentamente em sincronia, bombeando dados e lodo nutritivo para uma fileira de cinco corpos suspensos no teto por ganchos enferrujados. Eram cadáveres de segurança corporativa, mortos há muito tempo. Seus rostos não passavam de crânios encapados por silicone barato e viseiras trincadas, mas as luzes indicativas de seus sistemas de wetware piscavam intermitentemente.
O "Jardim" não os deixava apodrecer em paz. Eles eram a tranca.
— Detecção de rede biológica em malha fechada, — Valéria anunciou, estática. Seu contorno mecânico parecia apenas um fragmento de sombra deslocado pela pálida luz avermelhada do corredor. Ela não hesitou, não sentiu nojo. Caminhou até o lodo viscoso que cobria o painel de acesso da porta. — Abertura exige protocolo de autenticação nível diretor ou ruptura forçada do ciclo de dados cerebral das bio-baterias. Iniciarei tentativa de acesso via porta paralela de manutenção.
Ela cravou dois cabos de sua luva tática diretamente na carne pulsante que cobria a placa de rede.
Foi nesse instante que as portas do inferno químico se abriram na minha cabeça.
O cheiro do charuto do meu pai — uma mistura abafada de fumo, cravo e suor de estofado de couro — invadiu minhas narinas como uma nuvem de gás mostarda. Meu estômago contraiu, o ar pareceu se transformar em cinzas secas na minha traqueia. A alucinação era uma navalha me esfolando por dentro. O sistema de defesa dos cadáveres não era apenas físico; a rede exalava um odor de ozônio queimado que meu cérebro quebrado mastigava, engolia e vomitava como o pior trauma da minha vida.
— Gabo. Alerta de atividade inimiga. As unidades de segurança estão despertando, — o tom de Valéria era clínico, enquanto seus cabos continuavam sugando dados da parede orgânica.
Levantei os olhos. As cinco carcaças acima de nós começaram a espasmar. As juntas cibernéticas estalaram em uníssono. Carne apodrecida se retorceu enquanto os cabos do Jardim os desciam ao chão com um baque molhado. Suas mãos procuraram os bastões de choque corroídos que pendiam de seus cintos.
O primeiro cadáver se lançou contra mim.
Eu não podia recuar. Minhas pernas exaustas teriam cedido. E, pior, se eu cedesse ao pânico da fumaça, eu morreria sufocado pelo meu próprio cérebro antes que o bastão elétrico encostasse em mim.
— Não! — Eu rugi.
Ergui minha prótese industrial avariada. A engrenagem rangeu. Quando o cadáver desferiu o golpe de cima para baixo, interceptei a trajetória. O choque elétrico do bastão espalhou-se pela lataria do meu braço mecânico e subiu até os enxertos nervosos mal curados no meu ombro.
A dor foi um relâmpago divino. Esmagadora. Absoluta.
A fumaça do charuto sumiu da minha mente no mesmo instante, lavada pela agonia pura de mil agulhas de fogo rasgando meu córtex. Gritei, trincando os dentes com força suficiente para quebrar esmalte, e girei o peso descalibrado de chumbo da minha prótese em um arco devastador.
O impacto esmagou a caixa torácica da sentinela. Ossos e metal barato se estilhaçaram. O peito afundou, os cabos do Jardim se romperam, espirrando fluido orgânico que chiou no chão metálico. O cadáver caiu, inerte, sua luz ocular apagando.
Dois vieram logo atrás.
Eu avancei. Usar o braço mecânico quebrado daquela forma estava rasgando meus tendões restantes, envenenando minha corrente sanguínea com o choque de retorno a cada impacto brutal. Mas cada faísca de dor excruciante era um gole de oxigênio real em um mar de fumaça alucinada. Transformei a punição em âncora.
Soquei o crânio do segundo. Ele afundou sob o peso do meu punho de aço como uma lata podre. Usei a alavanca pesada do braço para bloquear um ataque lateral do terceiro e, num movimento contínuo e exaustivo de quadril e perna esquerda, chutei a base de seus joelhos invertidos, partindo a perna e esmagando seu módulo de processamento dorsal contra o chão da plataforma.
A exaustão cobrou o preço. O quarto cadáver cravou seu bastão de choque contra minha coxa. Minha órtese mecânica absorveu parte do dano, mas o golpe estourou três reguladores de pressão. Caí de joelhos no lodo, ofegante.
O quinto saltou em direção a Valéria.
Ela não se mexeu. Seus olhos artificiais observaram o corpo decadente avançar contra ela enquanto os dados fluíam pelos cabos. No momento em que o ataque chegaria ao seu crânio, os visores da porta principal acenderam da cor verde esmeralda.
— Autenticação forçada concluída, — ela recitou.
A pesada porta blindada de Nível Sete deslizou para os lados com um som de sucção, quebrando a integridade de todas as raízes cerebrais conectadas ao sistema de segurança.
No mesmo instante, o quarto e o quinto cadáveres paralisaram. O pulso bioluminescente que corria por suas veias se apagou. Sem a conexão principal, eles desmoronaram no lodo como os fantoches quebrados que eram, desconectados da Grande Obra do Jardim.
Fiquei ali de joelhos, o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos. O cheiro de lodo e metal queimado dominava, expurgando o charuto do meu pai. Minha respiração soou úmida. O suor em meu rosto estava misturado com respingos de sangue podre e o ácido da bateria da minha prótese, que agora soltava curtos-circuitos esporádicos perto da minha clavícula, cravando fisgadas de dor aguda constantes. Eu a deixei fritar. Eu precisava da dor.
— Invasão tática ao nível trinta da instalação central autorizada, — Valéria desconectou os cabos da parede arruinada. Ela olhou para mim. Não havia alívio ou triunfo em sua postura. Apenas estática funcional. — Nossos níveis de integridade estrutural estão caindo exponencialmente, Gabo. A progressão atual é ilógica sem chance de recarga de substratos e fluidos médicos.
Me levantei, rangendo as articulações destruídas. Cuspi sangue e poeira no chão biológico e manquei em direção à porta aberta, sentindo cada centímetro da carne rasgada sob o metal das minhas pernas e do meu braço avariado.
— Quem disse que eu vim pra sobreviver? — Murmurei, adentrando o Arquivo.