Appearance
Capítulo 115: O Arquiteto da Carne
O calor não era apenas temperatura; era uma pressão física. O ar no Subnível 4 tinha a consistência de sopa quente, engordurada pelo cheiro adocicado e nauseante de biomassa sendo convertida em volts.
Gabo limpou o suor que escorria para dentro dos olhos com as costas da mão suja de graxa. Sua perna direita, aquela que Dante havia remendado com sucata e parafusos industriais, protestava a cada passo sobre o gradeado de metal. Click-clack, click-clack. O som irregular de seus passos era o único ruído humano na sinfonia de pistões e turbinas.
— A assinatura térmica está aumentando — a voz de Aria cortou o zumbido. Ela caminhava à frente, o manto térmico oscilando com o vento quente que subia das fossas de magma abaixo.
Gabo olhou para ela. Por um segundo, a iluminação âmbar de emergência bateu no rosto de Aria, e ele viu Bia. A mesma linha do maxilar, o mesmo jeito de inclinar a cabeça quando estava concentrada. Ele sentiu o familiar gosto de bile na garganta, seguido pelo delírio asfixiante e onipresente da fumaça invadindo seus pulmões. O trauma se manifestava no calor opressivo.
Não, ele lembrou a si mesmo, buscando a dor como âncora. Ele desceu a mão, forçando um toque violento contra o encaixe cru da sucata metálica em sua perna direita. A dor lancinante da carne ao redor do metal irradiou pelo corpo, quebrando a alucinação e devolvendo-o à realidade. A dor era melhor. A dor era limpa.
— Val — Gabo grunhiu, forçando os olhos a se desviarem do fantasma de sua ex-namorada morta. — Quanto falta para o núcleo de resfriamento?
Valéria estava conectada a um painel de parede, seus olhos azul-gelo dançando com dados invisíveis. Ela parecia pálida, o nariz sangrando um filete fino e escuro, sequela do esforço neural excessivo.
— Estamos perto. Mas... — ela hesitou. — O código mudou. A arquitetura da rede aqui embaixo não segue os protocolos do Dante. É... orgânica.
— O Taxidermista — Gabo cuspiu o nome como se fosse veneno.
Como se respondendo ao chamado, os monitores ao longo do corredor, que até então exibiam gráficos de eficiência energética, piscaram em uníssono. O ruído estático foi substituído por uma imagem granulada: um relógio de bolso antigo, balançando hipnoticamente.
— Tick-tock, Detetive — a voz veio de todos os lugares e de lugar nenhum. Era suave, culta, com aquele tom de avô que conta histórias de terror para crianças. — Você está atrasado. O tempo não espera por ninguém, muito menos por homens quebrados.
Gabo ergueu a Caronte, apontando a escopeta para a tela mais próxima.
— Apareça, seu filho da puta. Vou terminar o que a enchente começou.
Uma risada seca ecoou.
— Tanta raiva. Tanta... ineficiência. Veja ao seu redor, Gabriel. Veja o que construí.
As paredes do corredor se tornaram transparentes – ou talvez telas de alta definição. Gabo viu o interior das caldeiras. Não era carvão que queimava lá. Eram corpos. Milhares deles. A "Nova Alvorada" não era reabilitação; era combustível.
— Dante queria ordem — a voz do Taxidermista continuou. — Eu lhe dei a perfeição. A carne humana é um recurso desperdiçado. Eu apenas fechei o ciclo. O lixo da cidade se torna a luz da cidade. É poético, não acha?
Valéria engasgou, recuando.
— Ele está roteando a energia vital diretamente para o suporte de vida do Dante. Ele está... ele está alimentando seu pai com a cidade.
Gabo sentiu o mundo inclinar. A perna doía, a cabeça girava. Ele se lembrou da Torre do Relógio. Do som de seus ossos quebrando. O Taxidermista não era apenas um serial killer; ele era o engenheiro do inferno.
— Abra a porta, Val — Gabo ordenou, sua voz baixa e perigosa.
— Gabo, o firewall é...
— ABRA A PORTA! — Ele rugiu, batendo com a coronha da arma no painel.
Aria se adiantou. Ela colocou a mão pálida sobre o console. Faíscas azuis saltaram de seus dedos.
— Detectando anomalia lógica — disse Aria, com a voz de Bia, mas sem a alma dela. — O sistema prioriza a eficiência. A presença de invasores reduz a eficiência em 0.4%. Solução: Eliminação.
As luzes do corredor ficaram vermelhas. As portas de segurança atrás e à frente deles se fecharam com estrondos metálicos. Do teto, aberturas se abriram. Não eram armas de fogo. Eram pulverizadores.
Um cheiro químico acre, de formol e amônia, começou a preencher o espaço.
— Gás paralisante — a voz do Taxidermista sussurrou. — Vamos ver se seus ossos curaram bem, Gabriel. Tenho novos relógios que precisam de ponteiros.
Gabo prendeu a respiração, arrancou um pedaço de pano da manga do sobretudo e cobriu o rosto.
— Val, Aria, achem uma saída! — ele gritou abafado. — Eu vou comprar tempo.
Ele apontou a Caronte para as tubulações de vapor acima das telas. Se o bastardo queria eficiência, Gabo lhe daria o caos.
