Appearance
Capítulo 28: O Último Suspiro da Torre
O silêncio após o grito eletrônico de Dante era mais pesado que qualquer som. Durou pouco. Uma sirene estridente, fria e impessoal, cortou o ar. Uma voz sintética, desprovida da personalidade do Gamemaster, preencheu o espaço.
"ALERTA DE CONTENÇÃO. PROTOCOLO GÊNESIS ACIONADO. PURGA DE COMPOSTO NEUROTÓXICO INICIADA. EVACUAÇÃO BIOLÓGICA COMPROMETIDA. TEMPO PARA SATURAÇÃO TOTAL: DEZ MINUTOS."
— Gás! — gritou Valéria, o rosto pálido sob a luz vermelha de emergência. — Eles vão esterilizar a torre inteira!
O som não era de um vazamento, mas de um dilúvio. Das grades do teto, uma névoa amarelada começou a descer, não como fumaça, mas como um líquido pesado e denso, caindo em véus que engoliam a luz.
— A porta! — gritou Elena, correndo para a saída de serviço.
Gabo se forçou a ficar de pé, deixando o corpo do pai para trás. Não havia tempo para luto, apenas para sobrevivência. Ele se juntou a Elena na porta, e os dois forçaram o metal. Travada.
— O desligamento do núcleo acionou o lockdown total! — disse Val, martelando o console com a mão boa. — Não consigo anular. É um bloqueio mecânico!
"NOVE MINUTOS."
A névoa já cobria o terço superior da sala. O ar começou a ficar pesado, com um cheiro metálico e adocicado, como ozônio e amêndoas podres.
— Aqui! — Gabo apontou com o queixo para as grades de ventilação no chão. — O sistema de refrigeração! Leva para os níveis inferiores!
Usando a coronha da escopeta e uma barra de metal que arrancaram de um painel, eles conseguiram arrebentar uma das grades. O buraco revelou um poço escuro e estreito, com uma escada de manutenção descendo para as entranhas da torre. O ar que subia de lá era frio e, por enquanto, limpo.
— Eu vou primeiro — disse Elena, já deslizando para dentro do duto. — Val, você vem no meio. Gabo, cubra a entrada.
Valéria, com o rosto contorcido de dor pelo ombro ferido, seguiu Elena. Gabo foi o último. Antes de descer, ele olhou uma última vez para o tanque quebrado. O corpo de Dante já estava quase submerso pela névoa amarela. Um túmulo químico para um rei digital.
Ele fechou a grade por cima deles, mergulhando o duto em escuridão total. O único som era o eco de suas respirações e o zumbido distante da sirene.
O espaço era apertado. O metal gelado da escada feria as mãos. O cheiro do gás já começava a se infiltrar por frestas na tubulação. Cada rangido do metal parecia um prenúncio de que a escada cederia, jogando-os no abismo.
— Mais rápido! — ofegou Gabo, sentindo a garganta começar a arranhar.
Eles desciam às cegas, o pânico crescendo a cada degrau. O duto se ramificava, criando um labirinto vertical.
— Val, para onde?! — gritou Elena de baixo.
— Meu implante está sem rede! — respondeu Valéria, a voz abafada pelo pânico. — Não consigo ver a planta! Temos que adivinhar!
A cada bifurcação, uma escolha. Um caminho podia levar à liberdade, o outro a um beco sem saída onde o gás os encontraria. A claustrofobia era um inimigo físico, pressionando seus peitos, roubando o ar que o veneno ainda não havia tomado.
"SEIS MINUTOS PARA SATURAÇÃO TOTAL."
A voz sintética ecoou pela tubulação, parecendo vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Eles não estavam escapando. Estavam apenas descendo mais fundo na armadilha.
