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Capítulo 200: O Poço do Abismo
O estrondo da porta de pressão se fechando ainda ecoava na base do crânio, uma reverberação de ferro maciço contra a pedra úmida que quase parecia um batimento cardíaco. Ali dentro, o cheiro de lodo apodrecido e ozônio fritando foi substituído por algo igualmente asfixiante: a poeira centenária de um túmulo vertical.
Eu escorreguei pela parede de metal frio, deixando o peso morto do meu corpo ceder. O choque elétrico ainda zumbia nas terminações nervosas do meu braço direito, uma formigamento doloroso que transformava meus dedos em garras retorcidas. Mas era a perna esquerda, ou o que restava dela presa à junta carbonizada, que exigia o sacrifício de manter a mente lúcida. A cada pulsação, a dor do corte onde enfiei o vergalhão para afastar as alucinações ardia como ferro em brasa.
Isso era bom. A dor era minha âncora. Quando a dor latejava, o cheiro fantasma do charuto de fumo doce recuava. Eu não ia deixar aquela nuvem maldita entrar na minha cabeça de novo. Nunca mais.
— O sistema cardiovascular do indivíduo alfa apresenta estabilização forçada, — a voz de Valéria quebrou o silêncio lúgubre. Seus ópticos azuis giravam no escuro, varrendo a geometria brutalista do poço. Ela operava no Modo de Segurança, a camada afetiva desligada, sobrando apenas a lógica fria de sobrevivência. — Contudo, o choque elétrico induziu micro-arritmias. Recomendo repouso de no mínimo cento e vinte minutos.
— Se a gente ficar parado cento e vinte minutos... — eu tossi, o gosto de cobre e poeira invadindo a boca. — A gente vira adubo pra... o que quer que seja aquela aberração de circuito e podridão lá fora.
Elias estava jogado no chão a poucos metros, abraçando os joelhos. Ele tremia tanto que seus dentes batiam em um ritmo frenético, quase cômico se o desespero não fosse tão palpável. O "Ermitão de Cobre" tinha visto o mundo dele desmoronar rápido demais.
— Não tem saída... — ele murmurou, a voz falhando. — O poço. Olhem pro poço.
Eu pisquei as manchas brilhantes da minha visão e inclinei a cabeça para trás, seguindo o feixe de luz que Valéria projetou para cima.
O poço de elevação do Setor 6 era uma artéria de concreto colossal, projetada para erguer toneladas de minério e maquinário pesado. Mas a cabine... A cabine principal não estava ali na base conosco. Pelo contrário. O cabo mestre, espesso como o tronco de uma árvore secular, pendia solto, rompido pela metade, desfiando em filamentos de aço retorcido. E as paredes do poço...
Em vez de liso e funcional, o concreto estava coberto por uma trama grotesca. Veias grossas de um fungo bioluminescente azulado subiam pelas paredes, entrelaçando-se com as vigas de sustentação em um abraço parasítico. O Jardim tinha chegado até aqui, infectando o sistema nervoso da cidade morta.
— A plataforma primária encontra-se presa no nível quarenta e dois, — relatou Valéria, após calcular a tensão e o ângulo dos cabos arrebentados. — Há uma escada de manutenção de emergência na lateral norte. No entanto...
— Sempre tem um "no entanto", — grunhi, usando a mão boa para me empurrar para cima, ignorando o gemido de protesto da minha espinha e a agonia rasgante na coxa.
— No entanto, a estrutura da escada apresenta setenta e três por cento de degradação devido à oxidação acelerada e invasão botânica. A viabilidade de uma escalada contínua sob o nosso peso combinado é estatisticamente nula.
Eu olhei para o abismo acima de nós. Escuro, profundo, e cheirando a esporos e ferrugem. Não havia luz no fim do túnel, apenas uma ascensão extenuante e mortal.
— Eu não consigo... — Elias repetiu, choramingando mais alto. — Minhas mãos não seguram nem a lanterna, detetive. Como vou subir oitocentos metros nisso?
Mordi o interior da bochecha até sentir o sangue quente escorrer, focalizando a ardência para esmagar a histeria que ameaçava brotar da minha própria exaustão. A dor era meu combustível, mas a reserva do tanque estava no limite. O metal das minhas órteses nas pernas rangeu em protesto, as articulações cheias de lodo.
— Você vai subir porque a alternativa é eu te jogar de volta pela porta e deixar você se explicar com o bicho da sucata, — menti, a voz saindo num rosnado arrastado. Fui até ele, mancando pesadamente, e o puxei pela jaqueta encardida. — E você, lata velha. Vai ter que desativar os limitadores de peso. Você vai carregar o fardo mais pesado de nós três.
Valéria virou os ópticos fixamente para mim. — Solicito esclarecimento. O indivíduo civil?
— Não. — Respirei fundo, o ar denso de poeira arranhando a garganta. — O medo dele pesa mais. Eu vou na frente. Se o degrau ceder comigo, eu tenho a perna mecânica pra tentar travar. Se ele cair, você segura.
Antes que ela processasse a ordem contraditória do modo de segurança, um som grave ecoou de cima. Não o rangido do metal caindo, mas um pulso. Um batimento surdo, grave, que fez a poeira vibrar no ar.
As raízes azuis nas paredes piscaram em uníssono, intensificando seu brilho doentio. O som não vinha de nós. Vinha da plataforma presa lá no alto. E estava descendo. Lentamente. Muito lentamente.
E não estava vindo de elevador. Estava rastejando pelas paredes.
— Valéria... — eu sussurrei, a mão direita formigando e procurando instintivamente pela pesada escopeta Caronte presa nas costas, que eu não conseguiria erguer a tempo.
— Detectando múltiplas assinaturas térmicas descendentes, — confirmou ela, a voz assumindo uma urgência letal. — Estimativa: trinta entidades. Tamanho médio equivalente ao espécime anterior. Tempo para interceptação: dez minutos.
Dez minutos. Uma escada podre. O limite do meu corpo sendo testado a um nível quase masoquista. Eu sorri, um repuxo sombrio nos lábios rachados, e soquei a própria perna avariada só para sentir a onda de choque me lembrar que eu não estava morto ainda.
— Então vamos subir antes que eles desçam. Move.