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Capítulo 7: O Fim do Silêncio

A sala de servidores havia se tornado um inferno branco. O nitrogênio líquido sibilava violentamente, congelando o chão e criando uma neblina tão densa que Gabriel mal podia ver a ponta de sua própria arma.

Ele avançava agachado, ouvindo. O som das botas pesadas de Kael esmagando o gelo era sua única bússola.

— Você acha que o frio me para, detetive? — A voz de Kael vinha de toda parte e de lugar nenhum, amplificada pela acústica metálica da sala. — Meus sensores táticos já se adaptaram. Você apenas cavou sua própria cova congelada.

Um vulto cortou a neblina à esquerda. Gabriel girou e disparou a Caronte. O tiro de escopeta acertou uma torre de servidores, espalhando destroços.

Uma lâmina zuniu no ar, errando o pescoço de Gabriel por centímetros e cortando a alça de seu colete. Kael estava rápido demais.

— Não sem você! — gritou Gabriel, recarregando a Caronte com uma mão, sentindo o chip engolido pesar no estômago como uma pedra.

Gabo! — A voz de Val falhou no ouvido. — A temperatura do núcleo está caindo muito rápido! Se os tanques congelarem, os cérebros morrem. A IA está desviando toda a energia para as travas de segurança!

— Isso significa que a porta dos fundos está aberta? — Gabriel gritou, levantando-se.

A esquerda, — sussurrou Aria em sua mente. — Joelho.

Kael surgiu da névoa como um demônio de aço. O lado direito de sua armadura estava coberto de escarcha branca. Ele levantou o braço modificado, a serra óssea girando com um guincho agudo.

Gabriel não recuou. Ele confiou na voz.

Quando Kael atacou, Gabriel pisou em um cabo solto no chão congelado e deslizou intencionalmente para baixo, passando por baixo da guarda do ciborgue.

Ele encostou o cano serrado da Caronte na articulação do joelho de Kael — o único ponto onde a armadura tinha uma fresta para mobilidade, agora fragilizada pelo frio extremo.

— Cirurgia de campo — rosnou Gabriel.

BOOM.

A explosão à queima-roupa vaporizou a perna mecânica de Kael. O gigante de metal rugiu — um som de fúria digital — e desabou, o peso de sua armadura arrastando-o para o chão. Fluidos hidráulicos negros jorraram sobre o gelo branco.

Gabriel não esperou para ver o estrago. Ele correu até onde Miranda estava encolhido.

— Levanta! — Gabriel puxou o homem pelo colete.

— Eu não consigo... — Miranda estava azul de frio.

— Você consegue ou morre aqui. Escolha.

Eles mancaram em direção à saída de serviço. Atrás deles, Kael tentava se arrastar usando os braços, a serra cortando o chão, gritando promessas de tortura eterna.

Eles atravessaram a porta de manutenção e caíram na escuridão úmida das galerias de escoamento da represa.

O túnel era vasto, cilíndrico, com uma passarela de grade metálica enferrujada correndo acima de um rio de lodo tóxico. O cheiro era de enxofre e decomposição.

— Não vamos conseguir a pé... — ofegou Miranda, tropeçando. O ferimento na perna dele sangrava através do curativo improvisado.

Gabriel iluminou o túnel com a lanterna tática. A cinquenta metros dali, estacionado em um recuo de serviço, estava um veículo. Um "Toupeira" — um buggy de manutenção de seis rodas, baixo, blindado, feito para navegar nos esgotos.

— Hoje é seu dia de sorte, Roberto — Gabriel arrastou o parceiro até o veículo.

A cabine era aberta, apenas uma gaiola de proteção. Gabriel jogou Miranda no banco do passageiro e pulou para o volante. Sem chave, óbvio.

Ele sacou o canivete, arrancou o painel de plástico sob o volante e puxou os fios da ignição.

Alerta de Intrusão no Setor Subterrâneo 4 — a voz da IA da represa ecoou pelos túneis, calma e terrível. — Unidades de Interceptação ativadas.

— Vamos, sua lata velha... — Gabriel uniu os fios.

O motor elétrico do Toupeira tossiu, engasgou e então rugiu com um zumbido de alta voltagem. As luzes do painel acenderam em um laranja anêmico.

— Segura firme! — gritou Gabriel, pisando fundo.

O buggy cantou pneu na grade metálica e disparou pelo túnel.

Atrás deles, luzes azuis e vermelhas iluminaram as paredes de concreto. O zumbido de motores de alto desempenho cresceu rapidamente.

Gabriel olhou pelo retrovisor quebrado. Três drones de perseguição "Vespa" vinham voando baixo, desviando das tubulações com precisão algorítmica.

— Eles estão nos alcançando! — gritou Miranda.

— Não por muito tempo.

Um dos drones disparou. Um feixe de laser queimou o ar e explodiu um cano de vapor ao lado da cabeça de Gabriel.

— Val! — Gabriel gritou no rádio. — Preciso de uma rota de saída! Agora!

Gabo? O que está havendo? Seus batimentos estão a cento e oitenta!

— Estou sendo caçado por drones no esgoto! Me dê um mapa!

Ok, ok... A trezentos metros tem uma bifurcação. A esquerda vai para a estação de tratamento. A direita é um duto de descarte pluvial antigo.

— Direita! Entendido!

Mais tiros. O pneu traseiro esquerdo do buggy explodiu, mas as seis rodas garantiam redundância. O veículo sacudiu violentamente.

A bifurcação apareceu.

— Segura!

Gabriel puxou o freio de mão e girou o volante. O buggy fez um drift de noventa graus, deslizando para o túnel da direita. A traseira do veículo raspou na quina de concreto.

Os drones tentaram fazer a curva. O primeiro conseguiu. O segundo bateu contra a parede e explodiu.

— Um a menos! — gritou Miranda, rindo nervosamente.

O túnel antigo era mais estreito. O teto era baixo.

O drone restante se alinhou atrás deles. Uma luz vermelha de mira apareceu nas costas do banco de Gabriel.

Salte, — disse Aria.

Gabriel viu uma rampa de detritos à frente.

— Não se ele não tiver alvo.

Gabriel acelerou em direção à rampa.

— Gabo, o que você vai...

O buggy atingiu o lixo e decolou.

No ar, o veículo girou levemente. O míssil do drone passou por baixo deles, explodindo no chão onde eles estariam um segundo antes. A onda de choque empurrou o buggy ainda mais para cima.

O veículo aterrissou pesadamente, a suspensão gemendo até o limite. Gabriel lutou para manter o controle enquanto o buggy quicava e derrapava na lama.

À frente, a luz cinzenta do dia filtrava-se por uma grade enorme.

— A saída! — gritou Miranda.

— Está fechada! — Gabriel viu as correntes grossas.

— Vamos bater?

— Vamos arrombar.

Gabriel não desacelerou. O impacto foi brutal.

O "Toupeira" atingiu a grade enferrujada a oitenta quilômetros por hora. O metal gritou, as correntes estouraram como barbante, e o buggy voou para fora do túnel, aterrissando em um monte de sucata num beco da Zona Industrial.

Eles capotaram duas vezes antes de parar de cabeça para baixo.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo tique-taque do motor quente esfriando na chuva.

Gabriel soltou o cinto de segurança e caiu no teto do buggy. Ele se arrastou para fora, cortado e contundido, mas vivo. Ele puxou Miranda, que gemia de dor.

O drone não os seguiu.

A chuva caía pesada, lavando o lodo do esgoto de seus rostos.

Gabriel checou o pulso de Miranda. Fraco.

Gabo... — Val sussurrou no rádio. — Vocês saíram? Eu perdi o sinal.

— Estamos vivos, Val. — Gabriel tossiu, cuspindo bile. — Mas por pouco. Destruímos um veículo da companhia no processo. Mande a conta pro Krell.

Ele olhou para a silhueta da Torre Aeterna no horizonte. Eles tinham machucado a besta, sim. Mas ela ainda estava faminta.

Gabriel levantou Miranda, sentindo o chip no estômago revirar.

— Vamos, Roberto. Tem uma clínica clandestina a duas quadras daqui. O "Doutor" não faz perguntas se pagarmos em dinheiro vivo. E depois... você vai me contar tudo o que sabe sobre o inferno que acabei de ver.