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Capítulo 56: O Preço do Amanhã
Dia 47 do Dilúvio - Manhã Seguinte
A chuva tinha mudado. Não era mais o dilúvio furioso dos dias anteriores, mas uma garoa fina, fria e persistente que parecia penetrar nos ossos.
Gabo estava sentado no capô do Cobalt, estacionado sob a marquise de um posto de gasolina abandonado na Zona Industrial. O café em seu copo térmico estava frio, mas ele bebia mesmo assim. A cafeína era a única coisa mantendo seus reflexos funcionais.
Em sua mão, um pedaço de papel amassado. A letra era cursiva, elegante, inconfundível.
"Não me procure. O que eu carrego é grande demais para ser escondido em um porão. Preciso levar isso para fora da cúpula, para onde a Aeterna não pode apagar os arquivos. Cuide de você. A Aria se foi, mas a culpa não precisa te levar junto. E, por favor, tente não morrer. — L."
Elena tinha ido. Partira no último comboio de refugiados clandestinos, misturada entre os desesperados que vendiam tudo o que tinham por um lugar em um caminhão de carga rumo às Terras Altas. Era melhor assim. Ela era um alvo agora, e tê-la por perto era garantir uma bala na cabeça de ambos.
Mas ela tinha deixado algo para trás. Ou melhor, alguém.
Gabo olhou para o banco de trás do carro. A boneca de pano remendada estava ali, apertada contra o assento como um escudo. E, na mesma fração de segundo, a Menina do Orelhão apareceu em sua mente — menor do que ele lembrava, mais frágil, dormindo como se a cidade não existisse.
— Estamos sozinhos, garota — murmurou Gabo, amassando o bilhete e guardando-o no bolso do sobretudo.
O rádio do carro chiou, cortando o silêncio. A voz sintética do sistema de emergência da cidade ecoava:
"Atenção, cidadãos. A Zona Industrial Leste foi declarada Área de Reurbanização Prioritária. Todos os residentes devem evacuar imediatamente. Unidades de pacificação estão a caminho. A resistência será classificada como ato terrorista. Repetindo..."
Gabo olhou para o horizonte. Drones de topografia, enxames deles, pairavam sobre as ruínas dos prédios bombardeados. Eles emitiam lasers vermelhos, escaneando cada centímetro de concreto quebrado.
Não estavam procurando sobreviventes. Estavam medindo o terreno.
Ele viu uma placa holográfica recém-instalada sobre os escombros de uma antiga fábrica têxtil. O logotipo era novo, elegante, minimalista: NOVA BAÍA - O Futuro Começa Aqui.
— Eles não estão perdendo tempo — disse Gabo para si mesmo.
Ele entrou no carro, o movimento fazendo sua coluna protestar violentamente. As órteses improvisadas nas pernas rangeram, lutando contra a ferrugem e a falta de manutenção. Ele precisava de óleo. Precisava de peças. Mas, acima de tudo, precisava sair dali antes que a lembrança de Aria o esmagasse.
Os "corretores" estavam chegando. E em Baía Cinzenta, uma ordem de despejo vinha acompanhada de um esquadrão de extermínio.
Ele girou a chave. O motor do Cobalt tossiu, engasgou e, finalmente, rugiu. Um som feio, metálico, de uma besta ferida que se recusa a morrer.
— Vamos ver quanto vale o metro quadrado da minha alma — rosnou Gabo, engatando a primeira e acelerando em direção à névoa.
