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Capítulo 20: Profanação
O Cemitério dos Esquecidos era uma favela vertical de túmulos. Caixões de concreto empilhados uns sobre os outros, criando arranha-céus de morte.
Gabriel e Valéria se moviam pelas sombras. A visão noturna de Valéria estava no máximo.
— Três patrulhas de drones no perímetro — sussurrou ela. — Mas o centro está limpo. Limpo até demais.
— Eles querem que a gente entre — disse Gabriel.
O jazigo da família Moretti ficava no "Térreo", a parte mais antiga e úmida do cemitério. Era uma cripta de pedra real, um luxo em uma cidade de plástico.
Quando chegaram, a porta de ferro estava entreaberta.
Gabo sacou a arma e entrou, a lanterna tática cortando a escuridão. O cheiro de terra molhada e flores podres era sufocante.
O caixão de mogno de Dante Moretti estava no centro. A tampa havia sido arrancada.
E estava vazio.
Não havia corpo. Não havia ossos. Apenas um terno velho, dobrado com uma precisão militar, e um objeto brilhante em cima dele.
Gabo se aproximou, o braço ferido protestando a cada passo. Era o distintivo de Comissário. Limpo. Polido. Como se estivesse esperando por ele.
— Ele não está aqui — disse Gabo, a voz desprovida de emoção. — Ele nunca esteve aqui. Foi tudo uma mentira. Meu luto, minha carreira... tudo uma peça de teatro.
— Gabo... — Valéria tocou seu braço bom. — Olha a parede.
Gabo virou a lanterna. Na parede de pedra da cripta, alguém havia pichado com tinta spray neon vermelha:
NÃO BUSQUE O PASSADO. SALVE O FUTURO. - D.
Gabo passou os dedos sobre a tinta seca. A curvatura do "S". O traço agressivo do "D".
— É a letra dele — sussurrou ele, a voz quebrando. — Ele esteve aqui. Ele escreveu isso pra mim.
E abaixo da mensagem, coordenadas.
— São coordenadas de GPS — disse Valéria, escaneando. — Apontam para a Torre de Transmissão de Emergência.
— O Gamemaster — disse Gabo.
— Seu pai está trabalhando com o Gamemaster? — Valéria parecia confusa.
— Não — Gabo apertou o distintivo do pai na mão até o metal cortar a pele. — Meu pai é o Gamemaster. A cidade inteira... minha vida inteira... foi um jogo que ele criou. E eu cansei de jogar.
De repente, o chão tremeu.
— Armadilha! — gritou Valéria.
As portas da cripta se fecharam com um estrondo. Gás começou a sibilar das aberturas de ventilação.
— Gás sonífero! — Gabo chutou a porta, mas era aço reforçado.
— Gabo, o teto! — Valéria apontou para uma rachadura antiga na pedra.
Gabo, ignorando a dor lancinante em seu ombro, uniu as mãos.
— Sobe!
Ele impulsionou Valéria. Ela se agarrou na borda da rachadura e se içou para fora.
— Me dá a mão! — ela gritou de cima.
Gabo prendeu a respiração, sentindo o gás queimar seus olhos. Ele saltou, agarrando a mão de Valéria. Ela era forte, seus servos musculares zumbindo com o esforço enquanto o puxava para o ar fresco da noite.
Eles caíram na lama do lado de fora, tossindo.
— Estamos vivos — ofegou Valéria.
— Por enquanto — disse Gabo, olhando para o distintivo em sua mão. Ele o apertou com força, o metal frio uma âncora para sua nova e terrível clareza. — Não existe mais família.
Ele se levantou, o corpo quebrado, mas a vontade forjada em aço.
— Vamos para a Torre. Vamos terminar isso. Pai contra Filho. O fim do jogo.
Valéria segurou o pulso dele antes do primeiro passo.
— Primeiro, a gente pega o Leviatã no seu carro. Sem armamento pesado, a gente não passa nem do primeiro bloqueio.
Gabo concordou com um aceno curto. A guerra final podia esperar alguns minutos; morrer desarmado não era heroísmo, era burrice.
