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Capítulo 82: O Profeta Mudo
Esgotos do Setor 4, "A Catedral de Ferro" - 22:00 PM
O lugar onde Padre Miguel costumava pregar para os esquecidos agora tinha novos inquilinos. Eram silenciosos.
Gabo e Val caminhavam pelas passarelas enferrujadas, a água suja fluindo metros abaixo. O cheiro era diferente aqui. Não cheirava a lixo, mas a terra úmida e flores doces, o mesmo cheiro do armazém e do laboratório.
— Meus drones perderam o sinal aqui embaixo — sussurrou Val. — A interferência é biológica. Esporos no ar bloqueando ondas de rádio.
Eles chegaram ao salão principal, uma vasta câmara de drenagem iluminada por tochas. Sim, fogo real. Nada de luzes LED.
Cerca de cinquenta pessoas estavam ajoelhadas em silêncio absoluto. Elas vestiam túnicas feitas de fibras naturais grosseiras, entrelaçadas com fios de cobre.
No altar improvisado, estava ele. O Profeta Mudo.
Era um ciborgue de modelo antigo, um trabalhador de construção pesada. Mas suas partes mecânicas haviam sido arrancadas ou substituídas. No lugar de um braço hidráulico, havia um galho grosso e nodoso que funcionava como membro funcional. Sua caixa de voz havia sido removida, o buraco na garganta coberto por uma orquídea negra vibrante.
— Eles não estão orando — notou Gabo. — Estão ouvindo.
O Profeta ergueu o braço-galho. A multidão, em uníssono, inclinou a cabeça. Não havia som, mas Gabo sentiu uma pressão nos ouvidos, como quando se mergulha em águas profundas.
— Infrassom — detectou Val, lendo os dados em seus óculos. — Ele está emitindo frequências abaixo da audição humana. Mas o corpo sente. Causa medo, reverência... submissão.
De repente, o Profeta virou a cabeça. Ele não tinha olhos, apenas órbitas vazias preenchidas por musgo brilhante. Ele olhou diretamente para onde Gabo e Val estavam escondidos nas sombras.
A orquídea em sua garganta vibrou.
O som que saiu não foi humano. Foi o ruído de uma árvore estalando ao vento, amplificado mil vezes.
Crack.
Os fiéis se levantaram como um só corpo e viraram-se para os intrusos. Seus olhos eram brancos, leitosos, cegos pela infecção fúngica.
— Corra — disse Gabo.
Eles dispararam pela passarela. Atrás deles, não havia gritos de guerra, apenas o som suave e aterrorizante de cem pés descalços correndo no metal, e o zumbido constante daquele infrassom que fazia os dentes de Gabo doerem.
— Saída Leste! — gritou Val, disparando uma granada de flashbang para trás.
A luz explodiu, mas os cultistas não pararam. Eles não precisavam ver. Eles sentiam a vibração dos passos dos fugitivos no metal.
Eles alcançaram a escada de manutenção e subiram desesperadamente em direção à tampa do bueiro. Gabo empurrou a tampa pesada e eles rolaram para o asfalto frio da rua, sob a luz das estrelas.
Val selou a tampa com solda térmica de emergência.
— Você viu aquilo? — Val estava ofegante, o que era raro. — Aqueles não eram os mendigos do Padre Miguel.
— Não — concordou Gabo, tentando acalmar o coração. — Reconheci alguns rostos. Eram programadores. Engenheiros da Aeterna que perderam o emprego. Gente que vivia conectada 24 horas por dia.
— E agora vivem na lama. Por quê?
— Porque eles encontraram uma nova rede — disse Gabo. — Uma que não precisa de eletricidade. E o Profeta Mudo é o roteador.
