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Capítulo 16: Zona Morta

A escuridão em Baía Cinzenta tinha peso físico. Sem a poluição luminosa dos neons, dos hologramas publicitários e dos drones de vigilância da Aeterna, a cidade parecia um animal morto, frio e rígido. Era um cadáver de concreto que começava a esfriar sob a chuva constante.

Gabriel e Valéria se moviam pelos túneis de manutenção do metrô antigo, dois fantasmas deslizando pela artéria entupida da cidade. Valéria usava um óculos de visão noturna tática, cuja bateria de reserva piscava em vermelho no canto da lente.

— Para onde estamos indo? — perguntou ela, a voz ecoando baixo no túnel.

— Para o único lugar onde o Gamemaster não pode nos ver — disse Gabriel, mancando levemente, mas avançando com determinação. — O Cemitério dos Esquecidos. Setor 7.

— Um cemitério? Por que lá?

— Porque os mortos não usam wi-fi. — Gabo parou para verificar uma bifurcação. — Meu pai construiu um bunker lá embaixo. Um "espaço seguro" analógico. Sem rede, sem energia externa, blindado com chumbo e concreto.

Eles caminharam por horas. Acima deles, a superfície estava em guerra civil silenciosa. Gangues saqueavam lojas escuras, cidadãos se armavam com o que tinham. O "Jogo" havia quebrado o fino verniz de civilidade que restava. O medo era a nova moeda corrente.

Quando chegaram ao Setor 7, a chuva havia voltado com força total, lavando a fuligem de seus rostos e encharcando suas roupas. O cemitério era uma favela vertical bizarra, construída sobre túmulos empilhados, onde os vivos moravam em cima dos mortos por falta de espaço. Mas estava quieto. Os moradores do Setor 7 sabiam como se esconder quando a tempestade vinha.

Gabriel encontrou a entrada do mausoléu da família Moretti, uma estrutura modesta de pedra cinza, coberta de musgo ácido. Ele empurrou a laje de pedra lateral. Ela rangeu, revelando uma escada em espiral que descia para a escuridão absoluta.

Lá embaixo, o ar era seco e cheirava a papel velho e óleo. Gabriel riscou um fósforo e acendeu uma lanterna a óleo pendurada na parede. A chama amarela vacilou, depois cresceu, projetando sombras longas nas paredes de tijolo aparente.

O bunker era pequeno, espartano. Uma mesa de metal, um catre militar, um rádio de ondas curtas soviético e uma parede inteira coberta de mapas de papel, fotos reveladas em quarto escuro e notas manuscritas.

— Isso é... — Valéria passou a mão pelos papéis, maravilhada. — O Dossiê Lázaro original.

— Meu pai sabia que a tecnologia ia nos trair eventualmente — disse Gabriel, trancando a porta atrás deles. — Ele deixou isso para o dia em que o sistema caísse.

Gabriel foi até um armário de metal enferrujado e tirou uma caixa de primeiros socorros de metal branco, amassada, com uma cruz vermelha pintada à mão. Dentro, havia munição, rações de emergência e um kit cirúrgico de campo.

— Val, senta aqui. — Ele apontou para a cadeira de metal sob a luz da lanterna.

Ela obedeceu, o maxilar travado. A confiança que ela depositava nele era um peso, uma honra aterrorizante. Ele pegou um bisturi esterilizado do kit, a lâmina brilhando sinistramente à luz do fogo.

— Você disse que precisava de cirurgia para tirar o rastreador. — A voz de Gabo era calma, mas suas mãos estavam frias.

Valéria engoliu em seco. O medo era visível em seus olhos prateados, mas ela não recuou.

— Você vai fazer isso? Aqui? Com uma lanterna a óleo e vodca barata?

— É o que temos. — Gabriel segurou o bisturi. A lâmina tremeu por um milissegundo, depois estabilizou. — Preciso que você confie em mim, Val. Mais do que já confiou em qualquer código ou firewall.

Valéria olhou nos olhos dele. Viu o medo que ele tentava esconder, mas também viu a determinação de ferro. Ela assentiu, puxando o colarinho da jaqueta para baixo e prendendo o cabelo, expondo a nuca pálida, marcada pelas portas de conexão cromadas.

— Tira essa merda de mim, Gabo. Me deixa muda para eles.

A operação foi brutal em sua simplicidade. Não havia anestesia, apenas um pedaço de couro enrolado para ela morder e uma garrafa de uísque barato para desinfetar e entorpecer (pouco). Gabriel cortou a pele com precisão cirúrgica, o sangue quente cobrindo seus dedos, escorregadio e metálico.

Valéria gritou abafado contra o couro, seu corpo convulsionando com a dor dos nervos sendo tocados. Gabo teve que segurá-la firmemente com uma mão enquanto escavava com a outra, raspando perto do osso cervical até encontrar o objeto estranho.

— Estou quase lá... segura... — sussurrou ele, suando frio.

Com um puxão seco, ele extraiu o chip — um pequeno besouro preto de silício e carne sintética. Valéria desmaiou por uns segundos, a cabeça pendendo para a frente.

Gabriel jogou a coisa no chão de concreto e a esmagou com o salto da bota, reduzindo a tecnologia de ponta a pó e lixo.

Ele fez um curativo compressivo rápido, limpando o sangue com gaze estéril. Suas mãos tremiam incontrolavelmente agora que a adrenalina baixava.

— Acabou — sussurrou ele, limpando o suor do rosto dela com um pano úmido. — Você é só você agora. Sem GPS. Sem feed. Apenas Valéria.

Valéria abriu os olhos. Eles estavam vidrados de dor, mas límpidos.

— O silêncio... — ela respirou, tocando a mão dele com dedos trêmulos. — É a coisa mais linda que eu já ouvi. Não tem vozes. Não tem dados. Gabriel, obrigada.

Gabo sentou-se no chão na frente dela, exausto.

— Precisamos de um plano. O Gamemaster desligou a cidade para criar o caos, para limpar o tabuleiro. Mas ele é um showman. Ele precisa transmitir o final.

— A Torre de Transmissão de Emergência — disse Valéria, a voz fraca. — Fica no ponto mais alto do Distrito de Prata. É a única coisa que funciona com geradores nucleares independentes. Se ele quiser transmitir a "Season Finale", vai ser de lá.

— Então é para lá que vamos.

— Gabo... é uma fortaleza. Drones, torretas, guardas de elite.

Gabriel olhou para o mural de seu pai na parede. Para a foto dele criança, sorrindo sem saber o futuro que o aguardava.

— Não vamos invadir — disse Gabriel, levantando-se. — Vamos ser convidados.

— Como?

— O Gamemaster quer um show? Ele quer o Herói Caído e a Traidora? Nós vamos dar a ele. Vamos nos entregar.

— Você ficou maluco? — Valéria tentou se levantar mas tonto.

— É um Cavalo de Troia, Val. Você sem o rastreador é invisível para os sensores biométricos dele. Eu me entrego, atraio toda a atenção, todos os olhos, todas as câmeras. E você entra pelos fundos, invisível, e derruba o servidor.

Valéria olhou para ele. Era suicídio. Mas era a única chance.

— Ok — disse ela, um sorriso fraco aparecendo. — Vamos terminar esse jogo.

Gabriel foi até o rádio de ondas curtas e o ligou. O chiado da estática encheu o bunker. Ele ajustou a frequência para o canal de emergência aberto da Aeterna.

— Atenção, Gamemaster — disse Gabriel para o microfone, sua voz calma ecoando na escuridão subterrânea. — Aqui é Gabriel Moretti. Pare de quebrar minha cidade. Eu estou indo.

Ele soltou o botão.

— Prepare-se, Val. A Zona Morta acabou. Vamos voltar para a luz e quebrar tudo.