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Capítulo 118: O Colapso da Onda

O líquido no tanque borbulhava, uma sopa amniótica para um deus artificial.

Escolha, Gabriel, — a voz de Dante ecoou na mente de Gabo, não nos ouvidos. Era uma violação, um dedo sujo revirando suas memórias. — Mate o pai e condene os filhos. Ou baixe a arma e aceite a ordem.

Gabo olhou para Valéria. Ela estava de joelhos, as mãos agarrando a cabeça como se tentasse impedir que seu crânio se partisse. O sangue que escorria de seu nariz pingava no chão branco e estéril, criando manchas vermelhas violentas, como flores desabrochando na neve.

— Ele não está mentindo — sussurrou Valéria, a voz pastosa. — Sinto... sinto todos eles. Milhares. Gritando em uníssono. Se a onda quebrar de repente... o choque vai nos fritar.

Gabo apertou o punho da Caronte até as juntas ficarem brancas. O ódio era um gosto de cobre na boca. O velho sabia exatamente onde bater. Ele transformara a compaixão em uma arma.

— Aria — Gabo não desviou os olhos do tanque. — Qual a probabilidade de ele estar blefando?

— A ameaça é tecnicamente válida — respondeu a androide. Sua voz estava diferente. Menos sintética. Mais... cansada. — A arquitetura da rede neural distribuída não possui fail-safe para desconexão abrupta. A latência seria fatal.

Viu? — Dante sorriu no tanque, flutuando como um feto grotesco. — Até a sua máquina concorda. A lógica é inegável.

— A lógica é uma ferramenta — disse Aria. Ela deu um passo à frente, passando por Gabo. — Não um dogma.

Ela caminhou até o painel de controle do monólito. O vidro sob suas botas já não estalava; o frio estava sendo substituído por um calor radiante vindo das máquinas superaquecidas.

O que você está fazendo, defeito? — A voz do Taxidermista surgiu nos alto-falantes, perdendo a calma clínica pela primeira vez. — Afaste-se do terminal.

Aria olhou para Gabo. Por um segundo, a luz azul em seus olhos oscilou, revelando um castanho humano, quente e familiar. Bia.

— Gabo — ela disse. — O "Dilema do Bonde" assume que você só pode puxar a alavanca. Ele ignora a possibilidade de descarrilar o trem.

— Aria, não... — Gabo entendeu antes dela se mover.

Aria conectou o cabo de interface de seu pulso diretamente na porta principal do servidor.

Não houve explosão. Houve um som.

Um guincho agudo, digital, que subiu de frequência até sair do espectro audível e vibrar nos dentes. O monólito piscou. As luzes da sala oscilaram violentamente.

ACESSO NÃO AUTORIZADO — berrou o sistema. — INTRUSÃO DE NÍVEL ÔMEGA. FIREWALL COMPROMETIDO.

Dante, dentro do tanque, arregalou os olhos cegos. Ele abriu a boca num grito mudo, bolhas escapando freneticamente.

— Ela está... ela está absorvendo o feedback — Valéria ergueu a cabeça, assistindo com horror e fascínio. — Ela não está desligando a rede. Ela está assumindo o nó central. Ela está puxando a carga de todos os Drenados para si mesma.

O corpo de Aria começou a convulsionar. Fumaça branca saiu das juntas de seus ombros e pescoço. O cheiro de plástico queimado e ozônio invadiu o ar, sobrepujando o cheiro estéril do nitrogênio.

PARE! — a voz de Dante na mente de Gabo agora era medo puro. — VOCÊ VAI DESTRUIR A MATRIZ!

— Eu sou a Matriz agora — a voz de Aria saiu de todos os alto-falantes ao mesmo tempo, sobreposta, multiplicada por mil.

O vidro do tanque de Dante trincou. Uma fissura, depois duas. Como teias de aranha se espalhando.

Gabo correu até Aria e segurou seus ombros. O metal estava fervendo.

— Aria! Solte! Você vai fundir seu núcleo!

A androide virou o rosto para ele. A pele sintética do lado esquerdo estava derretendo, revelando o chassi prateado por baixo. Mas ela sorria. O sorriso de Bia.

— Cuide... da Val — ela sussurrou. — E pare... de se machucar... para lembrar de viver.

Com um puxão final, ela arrancou o cabo.

O choque de retorno a jogou para trás, contra a parede de metal. Ela caiu inerte, fumaça subindo de seu peito.

Mas o dano estava feito.

O tanque de Dante explodiu.

Não foi uma metáfora. O vidro temperado cedeu sob a pressão descontrolada das bombas de fluido. Galões de líquido viscoso inundaram a plataforma, arrastando o corpo frágil do "Pai" para o chão frio e molhado.

As luzes do laboratório mudaram para um vermelho de emergência. A voz do Taxidermista se dissolveu em estática e silêncio.

Valéria respirou fundo, puxando o ar como quem se afoga.

— Parou — ela disse, tocando o nariz. O sangramento cessara. — As vozes... pararam. Eles estão livres. Desconectados, mas vivos.

Gabo caminhou até a poça de fluido onde Dante Moretti tentava se levantar. O "Deus" tremia, tossindo, nu e vulnerável. Sem o tanque, sem a rede, ele era apenas um velho com cicatrizes e delírios de grandeza.

Gabo apontou a Caronte para a cabeça dele.

Dante olhou para cima. Seus olhos brancos pareciam perdidos, procurando uma conexão que não existia mais.

O silêncio... — ele sussurrou, a voz rouca, humana demais. — É tão... alto.

Gabo olhou para Aria, caída e fumegante no canto. Depois para Valéria, viva, mas marcada.

Ele baixou a arma. Não por piedade. Mas porque matar aquele homem agora seria dar a ele uma importância que ele não tinha mais.

— Acabou, Dante — Gabo disse. Sua voz era fria, sem triunfo. Apenas cansaço. — Você é apenas um homem. E homens apodrecem.

Ele se virou para Valéria.

— Pegue a Aria. Vamos sair daqui antes que esse lugar desmorone.

Valéria correu para o corpo da androide.

— Gabo... ela está em loop de reinicialização. O núcleo lógico está intacto, mas a matriz de personalidade...

— Vamos levá-la — Gabo ajudou a levantar o corpo pesado da máquina.

Atrás deles, Dante Moretti continuou deitado no chão molhado, tremendo no escuro, enquanto as sirenes de evacuação começavam a uivar.