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Capítulo 191: O Batismo da Ferrugem

O primeiro golpe da minha prótese industrial contra a válvula de contenção soou como um sino fúnebre desafinado, reverberando na vastidão mórbida do relicário. O metal espesso cedeu sob a força bruta do braço não calibrado. O cano central se rompeu, esguichando um fluido refrigerante esverdeado e borbulhante sobre os cabos cobertos de carne.

Instantaneamente, a sala reagiu.

Os alarmes do Jardim não eram sirenes eletrônicas. Eram uivos. Um zumbido grave, sub-humano, irrompeu dos pulmões necrosados das centenas de corpos pendurados nos servidores. Os cadáveres se contorceram nos cabos ópticos, vibrando de forma descontrolada enquanto a rede neural biológica detectava o colapso do sistema de resfriamento. A temperatura do ambiente, já espessa e doentia, começou a subir exponencialmente.

O calor trouxe de volta o espectro.

Com a evaporação ácida do ambiente, o perfume sufocante e adocicado do charuto do meu pai agarrou minha nuca. As paredes do relicário pareceram fechar, e a alucinação tornou o ar espesso e cinzento, arranhando minha garganta e cegando meus olhos. A náusea e o terror visceral ameaçaram travar minhas engrenagens.

Eu precisava expurgar o trauma. A dor do eletrochoque anterior começava a se dissipar no meu ombro entorpecido, então procurei uma nova forma de âncora.

Andei em direção à base do próximo pilar de servidores massivos e posicionei minha perna esquerda, equipada com a órtese avariada. Usei o peso do pilar para prender minha panturrilha contra a estrutura. Então, puxei a perna, forçando o motor da órtese além do limite. As engrenagens estilhaçadas do joelho mastigaram minha própria pele, rasgando carne até o osso. Um grito rouco me escapou quando a dor excruciante varreu meu corpo. A claridade voltou imediatamente. A fumaça fantasma de Dante recuou sob a pura agonia.

Com a visão desobstruída e ancorado pela dor física, levantei a prótese do braço novamente e deixei o peso de chumbo despencar.

O metal atingiu a segunda válvula com uma fúria brutal. O revestimento de concreto do pilar se partiu, revelando os dutos de alimentação que bombeavam lodo vermelho. Destruí as tubulações, e o bio-fluido começou a espirrar no chão como um sangramento descontrolado. O calor tornou-se escaldante. Os sistemas biológicos do Jardim falhavam sem a refrigeração forçada.

— Temperatura do núcleo alcançando 95 graus Celsius, — a voz fria de Valéria soou através do caos e dos gemidos estáticos das bio-baterias. Ela não auxiliava na destruição, mas também não a impedia. Ela apenas avaliava. — Ruptura iminente dos casulos de armazenamento em 120 segundos. Estrutura letal. Evacuação é recomendada imediatamente.

— Não sem ter certeza, — cuspi, o gosto de ferrugem e sangue preenchendo a boca. Eu me arrastei mancando pesadamente até o terceiro e maior dos pilares de sustentação, arrastando o peso do corpo exausto e mantendo o foco no rasgo sangrento do meu joelho.

As chamas começavam a nascer espontaneamente nos cabos expostos, ignitadas pelo calor dos servidores rodando dados à beira do derretimento total sem o resfriamento.

Eu golpeei, golpeei e golpeei de novo. O braço industrial gemia, faíscas espirravam das juntas desprotegidas, e eu ignorei o aviso de falha do meu próprio corpo orgânico. A terceira fundação cedeu. O servidor principal soltou um rangido estrutural violento.

As luzes vermelhas do Jardim vacilaram. Os corpos suspensos começaram a amolecer, desabando de seus cabos enquanto as conexões neurais torravam internamente pelo sobreaquecimento das placas-mãe acopladas.

— A integridade da rede do organismo cibernético local foi comprometida em 91%. Colapso em cadeia atestado, — relatou Valéria, virando-se com precisão de metrônomo em direção ao duto de acesso por onde havíamos chegado. — A probabilidade de ignição do fosso do elevador por pressão térmica é alta. Evacuação mandatória, Gabo.

Deixei a prótese abaixar. O ombro avariado pendia inerte. O cheiro de lodo fervendo, carne torrada e componentes eletrônicos carbonizados inundava o salão. Era nojento, tóxico, mas era autêntico. Não havia fumaça de charuto ali. Só o cheiro podre do fim de uma era corporativa e a destruição de uma praga.

— Entendido.

Manquei em direção ao acesso de saída, a perna mecânica estalando com a poça de sangue que eu deixava para trás. O inferno iluminava nossas costas, banhando o corredor em laranja e fogo. Eu estava destruído, moído pela dor brutal que eu mesmo infligira para continuar são, mas, pela primeira vez em muito tempo, minha mente estava quieta.

A fundação do Jardim no Setor 7 começava a desabar e queimar.