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Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: Dívida Técnica
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 03:45
  • Localização: O Fliperama (Esgotos / Subnível do Distrito Industrial)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Inspetor Rangel (Estável/Precário), Aria (Offline/Fragmentada).
  • Resumo: O pós-operatório improvisado deixa marcas físicas e psicológicas no grupo. Enquanto Rangel luta contra a febre, Valéria explica o conceito de "dívida técnica" ao tentar reparar Aria, traçando um paralelo sombrio entre o código quebrado da androide e as escolhas morais que fizeram para derrubar Dante. Gabo enfrenta seus demônios internos ancorado na dor física.

Narrativa

Capítulo 122: Dívida Técnica

O cheiro de carne cauterizada não ia embora. Ele parecia ter se agarrado às paredes de concreto úmido do bunker, impregnando o mofo, a ferrugem e até mesmo o gosto da água que Gabo bebia de uma garrafa plástica amassada.

Ele estava sentado no chão, as costas apoiadas contra a frieza de um servidor desativado. Suas mãos, finalmente limpas de sangue, repousavam sobre os joelhos, mas os tremores finos continuavam. Não era frio. Era o crash. A adrenalina que o sustentara desde a invasão da Usina Prometeu, passando pela fuga do caminhão de lixo e a cirurgia de açougueiro em Rangel, havia evaporado, deixando para trás apenas um buraco oco no estômago e uma exaustão que pesava como chumbo.

O silêncio do "Fliperama" era opressivo. Lá fora, quilômetros acima, Baía Cinzenta devia estar um caos. Sem energia, sem a "Voz" de Dante para manter a ordem, a cidade estaria se devorando. Mas ali embaixo, sob toneladas de esgoto e esquecimento, o único som era o zumbido errático do gerador a diesel que Valéria havia conseguido ligar e a respiração ruidosa de Rangel.

Gabo olhou para o inspetor. Rangel estava pálido, suando frio, murmurando coisas desconexas em seu delírio febril. "O rio... não olhe para o rio...". A cauterização havia parado o sangramento, mas a infecção era uma bomba-relógio. Eles haviam comprado tempo, mas a que juros?

— Você sabe o que é dívida técnica, Gabo? — a voz de Valéria quebrou o silêncio.

Ela estava debruçada sobre o corpo inerte de Aria, iluminada apenas pelo brilho azulado de um monitor terminal que ela havia conectado à porta de diagnóstico da androide. Seus dedos dançavam sobre um teclado mecânico antigo, o som das teclas clack-clack-clack ecoando como tiros distantes.

Gabo piscou, tentando focar.

— O quê?

— Dívida técnica — repetiu ela, sem tirar os olhos da tela rolando linhas de código corrompido. — É um termo de engenharia. Quando você escolhe uma solução rápida e suja agora, em vez de fazer do jeito certo, porque precisa entregar o projeto a tempo. Você "pega emprestado" do futuro.

Ela parou de digitar por um segundo e suspirou, um som trêmulo.

— Funciona no curto prazo. O sistema roda. O cliente fica feliz. Mas o código fica podre por dentro. E eventualmente... eventualmente você tem que pagar a dívida. Com juros compostos.

Valéria apontou para a tela cheia de erros hexadecimais vermelhos.

— O que fizemos com Aria na usina... usar ela como para-raios para o feedback neural de milhares de mentes... foi o maior empréstimo que já vi.

Gabo sentiu a garganta secar. Uma alucinação olfativa de fumaça de charuto — espessa, sufocante e intrusiva — veio como um soco físico no diafragma, trazendo as memórias mais obscuras de seu passado para aterrorizá-lo e fragilizá-lo.

Sua mão tremeu instintivamente em repulsa, buscando uma âncora. Não.

Ele agarrou o Colar de Sol sob a camisa. Apertou o metal até as arestas cortarem a palma da mão, usando a dor excruciante para despedaçar a alucinação e se manter focado. A dor era sua âncora para a realidade.

— Ela vai voltar? — perguntou Gabo, a voz rouca.

— O hardware está funcional. Mas o kernel... — Valéria balançou a cabeça. — É como se o sistema operacional dela tivesse sido reescrito por uma tempestade. Há fragmentos de memória que não são dela. Pedaços de sonhos dos Drenados. Medos. Dores. Tudo misturado com a programação base da Bia.

Valéria olhou para o rosto sereno e sintético de Aria.

— Se eu a reiniciar agora, pode ser que ela acorde. Ou pode ser que acorde gritando com a voz de mil viciados mortos. Essa é a nossa dívida.

Gabo se levantou, as articulações estalando. Ele caminhou até a mesa onde Rangel jazia e colocou a mão na testa do inspetor. Estava fervendo.

— Nós também temos uma dívida aqui — disse Gabo, olhando para o ferimento feio, coberto por bandagens improvisadas. — O ferro de solda foi a solução rápida. A sepse vai ser os juros.

Ele se virou para Valéria. O rosto dela estava manchado de graxa e fuligem, os implantes oculares girando em foco e desfoque, denunciando seu próprio cansaço.

— Precisamos de antibióticos. De verdade. Não essa merda vencida que o Kiko guardou aqui. Precisamos de soro, analgésicos. E precisamos de peças para a Aria que não sejam sucata.

— Lá fora é zona de guerra, Gabo — Valéria alertou. — Sem a rede, os drones de segurança devem ter entrado em protocolo de contenção autônoma. E as gangues... os Carniceiros, os Lázaros... eles vão sair das tocas. O escuro é o recreio deles.

— Eu sei.

Gabo soltou o colar e checou a carga de sua pistola cinética. Três balas. O cartucho de energia estava em 15%. Quase inútil.

— Mas a dívida venceu — disse ele, olhando para a escuridão do túnel de saída. — E nós não temos crédito pra renegociar.

Rangel gemeu na mesa, um som de dor crua que sublinhou as palavras de Gabo.

— Cuide deles — Gabo disse, prendendo a arma no coldre. — Tente isolar os setores de memória da Aria. Eu vou buscar o que precisamos.

— Onde? — Valéria perguntou, a voz tingida de medo.

Gabo ajustou o sobretudo, sentindo o peso familiar da responsabilidade e do fracasso.

— Conheço um lugar no Distrito 4. Uma clínica de rua. O tipo de lugar que não faz perguntas e aceita pagamento em favores ou violência.

Ele caminhou até a saída, parando apenas para olhar uma última vez para o grupo quebrado sob a luz amarela do bunker.

— Tranque a porta atrás de mim.

Ele saiu para a escuridão do esgoto, onde o cheiro de ozônio e podridão era a única promessa que a cidade cumpria.