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Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: A Superfície Pálida
  • Data In-Game: Pós-Colapso do Sentinel (Noite Eterna)
  • Localização: Superfície do Distrito 4
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria

Narrativa

Capítulo 182: A Superfície Pálida

O duto secundário desembocou em uma grade oxidada que pesava meia tonelada. Gabo não perdeu tempo procurando a trava. Ele cravou os ganchos da pesada prótese industrial entre as barras de ferro e acionou a força hidráulica contínua.

As veias do seu pescoço saltaram. O metal chorou e rasgou, cedendo ao peso brutal do braço não calibrado de Vasco. A grade desabou na lama, e Gabo caiu de joelhos na abertura, engolindo lufadas do ar da superfície.

Eles haviam deixado o subterrâneo, mas a paisagem à frente não oferecia consolo.

A superfície do Distrito 4 sob a Noite Eterna era uma ferida aberta. Prédios semi-desmoronados erguiam-se como dentes quebrados contra o céu nublado e doente. A chuva ácida havia dado trégua, deixando no lugar um ar espesso, carregado com uma fuligem cinzenta e tóxica que cobria tudo feito neve podre.

Assim que a brisa morna soprou a fuligem no rosto de Gabo, o pânico o agarrou pela garganta.

A fuligem não tinha o cheiro de cinzas de concreto. Para as sinapses mutiladas do detetive, a névoa transformou-se num véu espesso do charuto encorpado de Dante Moretti. Era a cabine do carro trancado de novo. As portas seladas. A fumaça entupindo cada poro do seu corpo, enquanto o isqueiro estalava em um escárnio calmo.

Gabo arregalou os olhos. Seus pulmões entraram em colapso reflexivo. Ele arfou, incapaz de sugar qualquer oxigênio, as mãos escorregando na lama úmida da borda do duto.

— Ritmo respiratório caindo a níveis hipóxicos — a voz monótona de Valéria ecoou perfeitamente limpa. Ela pisou fora do duto, caminhando até ele com passos matemáticos. — Diagnóstico de crise somática recorrente. Sugestão: Administração de betabloqueadores, indisponíveis no inventário.

A letargia mecânica dela era enlouquecedora. Gabo não tinha bloqueadores. Ele só tinha chumbo e dor.

Enquanto a fumaça ilusória lhe roubava os sentidos, Gabo arrastou a pesada prótese de aço até um vergalhão exposto que despontava do concreto despedaçado do duto. Sem hesitar, ele chocou a junta exposta do próprio cotoco contra a ponta enferrujada do ferro.

O metal cravou-se na carne crua onde a prótese encontrava seu ombro. Uma explosão de dor branca, pura e lancinante varou seu tórax, tão intensa que sobrepôs a própria sinapse de pânico. A fumaça fantasma se estilhaçou instantaneamente. Gabo sugou o ar real e podre do Distrito 4 em um grito asfixiado.

Ele continuou forçando a carne contra o vergalhão por mais um segundo para garantir que o fantasma do pai estivesse bem morto. O sangue escorreu, quente e real, pelo braço de aço.

Ele puxou o corpo para trás e caiu de costas na terra cinzenta. Estava exausto. Suas pernas protéticas rangiam, pesadas como chumbo, mas sua mente estava desanuviada.

— Nível de saturação de oxigênio retornando a parâmetros seguros. Perda de 2% de material hemático detectada na lesão autoinfligida — relatou Valéria, anotando mentalmente a integridade física de sua "ferramenta" de escolta. — O complexo hidropônico do Setor 7 dista quatro quilômetros a nordeste.

Ela não perguntou como ele estava. Ela não olhou para a expressão dilacerada dele. Gabo arrastou a garra mecânica pelo chão e usou a força bruta do maquinário para obrigar suas pernas falhas a levantarem o resto de seu corpo quebrado.

— Então... continua caminhando, Val — Gabo resmungou, cuspindo o gosto ferroso de sangue. A dor excruciante no ombro latejava num ritmo constante, um lembrete divino de que ele não estava trancado numa cabine enfumaçada com seu pai, e sim num inferno de sua própria escolha. — E me avise se alguma coisa resolver nos atrapalhar.